‘A Luta Continua’: The Struggle Continues

Good Morning, Brazil! And to all of you watching us from afar in this special day. Yes, today (October 28th, 2018) is election day down here… and the front runner is the kind of person that would make you think: “Ah, good thing it’s 2018 and we don’t need to deal with this kind of shit anymore”. Then you realize the shit is here, now, your heart drops to the floor, and you start stressing about your own safety and that of your loved ones.

Here is my prediction…

From Mirna Wabi-Sabi

Tradução Português (BR) aqui.

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The Official John Heartfield Exhibition (5 Finger hat die Hand/5 Fingers Has The Hand) Shared with the permission of the artist’s grandson, we much appreciate the generosity.

“Many, indeed, most political parties, especially in the metropolis, have become open servants of capital, and thus compete, not even pretending to represent the people, but in service to Wealth.

Political parties, in addition to being mechanisms to amass personal wealth, are machines to give people the illusion of democracy.”

(Múmia Abul Jamal)

Good Morning, Brazil! And to all of you watching us from afar in this special day. Yes, today (October 28th, 2018) is election day down here… and the front runner is the kind of person that would make you think: “Ah, good thing it’s 2018 and we don’t need to deal with this kind of shit anymore”. Then you realize the shit is here, now, your heart drops to the floor, and you start stressing about your own safety and that of your loved ones.

People are so stressed that even anarchists are talking about voting and doing the “lesser-evil” thing. But what will voting actually do? I have some scenarios in mind:

-J.B. wins and he actually does all the absurd things he claimed to want to do. This is less likely because, let’s be honest, when does a candidate actually follow through on a promise? Kill poor people, don’t allow an inch of land to indigenous and quilombist peoples, completely neglect public education and affirmative action, condone hate crimes!, militarize whatever necessary, and so on… In this scenario, he would simply be the irrigation of the already existing and thriving crop.

-J.B. wins and he doesn’t do anything (as usual). We just continue to live in a country where we need to hear his voice, and we pity ourselves for having the ability to discern meaning out of those inhuman screeches.

-Haddad wins, J.B. rallies his troops and his repulsive minions to take power by force. Democracy is certifiably over, we can finally stop pretending!

-Haddad wins, nothing changes, and we are left in bliss. The bliss of what could have been not… being; finally free from all of our most apocalyptic predictions. We’ll continue to kill poor people, not grant land to indigenous and quilombist peoples, completely neglect public education and affirmative action, condone hate crimes, militarize whatever necessary, and so on…- but Diet.

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In any case, comes summer and we’ll still know who did what this spring. Families will never be the same, no more guilt driven polite interactions at major holidays. Hopefully. And not too shabby is the memory of when virtually no one on the left shied away from using the word Fascist, shouting together knowing we don’t mean it figuratively.

For any case, I prepare, and wait for the day to pass, for us to stop occupying our minds with the absurd words of a bigot, and to get back to work. The truth is we are pretty much fucked either way, and the ballot is not what’s gonna get us out of it.


Update: The result is out

Brazil elected Jair Messias Bolsonaro as president. Since the “Messias” emerged, we began to see the masks falling.

Now, all the atrocities that have already been taking place, have been legitimized and will become even more visible. Kill the poor, as a solution to the crisis of Capitalism. Kill LGBTQI+ as a solution to the “crisis” of the traditional family. Kill black, kill Indigenous peoples, kill women .. and destroy the minimal achievements of many years of struggle.

We give up certain principles because of fear. Because crumbs are better than nothing. This strengthens the hegemony, while it accumulates and wastes sadistically. Fascism, which had hitherto been veiled, is now uncomfortably exposed. Now we’ll drown on Genocidal Patriotism.

Yesterday, October 28, 2018, shortly after confirmation of the election results, a woman was beaten by a Military Police officer in the state capital that voted least for Bolsonaro; Salvador.

She wore a red t-shirt with Lula’s face on it, and her unconscious face bled. The fear that we, marginalized, already felt on the streets, was only exacerbated.

Being marginal is not a crime, it’s being excluded.

Mirna Wabi-Sabi and Jam Costa


Mirna Wabi-Sabi

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is co-editor of Gods&Radicals, and writes about decoloniality, feminism, and anti-capitalism.


Tradução

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“Muitos, na verdade, a maioria dos partidos políticos, especialmente na metrópole, tornaram-se servos abertos do capital e, portanto, competem, nem mesmo fingindo representar o povo, mas a serviço da riqueza.

Os partidos políticos, além de serem mecanismos para acumular riqueza pessoal, são máquinas para dar às pessoas a ilusão da democracia “.

(Múmia Abul Jamal)

Bom dia Brasil! E para todos vocês nos assistindo de longe neste dia especial. Sim, hoje (28 de outubro de 2018) é dia de eleição aqui… e o candidato favorito é o tipo de pessoa que faria você pensar: “Ah, que bom que é 2018 e não precisamos mais lidar com esse tipo de merda”. Aí você percebe que a merda está aqui, agora, seu coração cai no chão, e você começa a se preocupar com a sua própria segurança e a de seus entes queridos.

As pessoas estão tão estressadas que até os anarquistas estão falando sobre votar e fazer a coisa do “menos-mal”. Mas o que a votação realmente fará? Eu tenho alguns cenários em mente:

-O coiso ganha e realmente faz todas as coisas absurdas que ele pretende fazer. Isso é menos provável porque, sejamos honestos, quando um candidato realmente faz o que promete? Matar pessoas pobres, não permitir um centímetro de terra para povos indígenas e quilombolas, negligenciar completamente a educação pública e cotas, defender crimes de ódio, militarizar o que for necessário, e assim por diante… Neste cenário, ele seria simplesmente a irrigação de uma plantação já existente e próspera.

-O coiso vence e não faz nada (como de costume). Nós apenas continuamos a viver em um país onde precisamos ouvir a voz dele, e temos pena de nós mesmos e mesmas por ter a capacidade de discernir o significado desses berros desumanos.

-Haddad vence, o coiso reúne suas tropas e seus asseclas repulsivos para tomar o poder à força. A democracia está comprovadamente acabada, podemos finalmente parar de fingir.

-Haddad vence, nada muda e ficamos felizes. A felicidade do que poderia ter sido… não ser; finalmente livre de todas as nossas previsões apocalípticas. Continuaremos a matar pessoas pobres, não concederemos terras a povos indígenas e quilombolas, negligenciaremos completamente a educação pública e as cotas, não condenaremos crimes de ódio, militarizaremos o que for necessário, e assim por diante…- mas versão Diet.

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“Agora posso comer qualquer coisa!”

De qualquer forma, chega o verão e ainda vamos saber quem fez o que esta primavera. As famílias nunca serão as mesmas, não haverá interações educadas baseadas em culpa nos principais feriados. Espero. E gostosa é a lembrança de quando praticamente ninguém da esquerda se esquivou de usar a palavra Fascista, gritando juntos, sabendo que não a usamos figurativamente.

Para qualquer dos casos, eu me preparo, e estou louca para que esse dia passe, para que paremos de ocupar nossas mentes com as palavras absurdas de um intolerante, e voltemos ao trabalho. A verdade é que estamos basicamente fodidos de qualquer forma, e a maquininha não é o que vai nos protejer disso.


Update: O resultado saiu

Brasil elegeu Jair Messias Bolsonaro como presidente. Desde que o “Messias” emergiu, começamos a ver as mascaras caindo.

Agora, todas as atrocidades que já aconteciam, foram legitimadas e se tornarão ainda mais visíveis. Matar o pobre, como solução para a crise do Capitalismo. Matar LGBTQI+, como solução para a “crise” da familia tradicional. Matar preto, matar Indígena, matar mulheres… e a destruição das mínimas conquistas de muitos anos de luta.

Abrimos mão de princípios por medo. Porque migalhas são melhores do que nada. O que fortalece a hegemonia, enquanto ela acumula e desperdiça sadicamente. O Fascismo que até então era velado, se escancarou. Agora seremos afogados e afogadas nesse Patriotismo Genocida.

Ontem, dia 28 de Outubro de 2018, logo após a confirmação dos resultados eleitorais, uma mulher foi agredida por um PM na capital do estado que menos votou pro Bolsonaro; Salvador.

Ela usava uma camisa vermelha com o rosto do Lula, e seu rosto inconsciente sangrou. O medo que nós marginalizados e marginalizadas já sentíamos nas ruas, só foi exacerbado.

Ser marginal não é crime, é ser excluido e excluída.

Mirna Wabi-Sabi e Jam Costa


Mirna Wabi-Sabi

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é editora de Gods and Radicals, escreve sobre decolonialidade, feminismo, e anti-capitalismo.

Fighting Invisibility: Maria Lacerda and Lucy Parsons

“Anarchism has been a hostile political field to racially marginalized segments of the population, as virtually all fields were, and somehow still are. Analyzing why this is is essential so that we can unlearn this harmful behavior.”

From Mirna Wabi-Sabi

English Translation here.

Translator’s note:

This text was originally published in Brazilian Portuguese, on the second issue of the “Enemy of the Queen” magazine, alongside what we believe to be the first translation of Lucy Parson’s text “The Negro”. There were a few adaptations made to the English version below: 1- the assumption that some of you might already know the historical information presented, 2- the explanation of the type of efforts we go through to disseminate Lucy’s work here in Brazil, and why.

Media is a powerful thing. Autonomous publishing was essential in the 19th century and still is today. Visibility and empowerment is a matter of life and death- we must not forget that. Thank you for reading.

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Combatendo a invisibilidade: Maria Lacerda de Moura

Quando ouvi falar da Maria Lacerda de Moura pela primeira vez, só consegui achar pequenos trechos de textos dela na Internet, e nada traduzido pro inglês. Quando finalmente voltei pro Brasil, procurei uma biblioteca anarquista com a esperança de poder pegar e ler algo dela em mãos. E foi exatamente isso que aconteceu. A edição de Serviço militar obrigatório para mulheres? Recuso-me! Denuncio! é épica; frágil e imortal ao mesmo tempo. A capa dura, áspera, vermelha, sem dúvida era mais clara e vibrante 80 anos atrás. As páginas duras, quebradiças e longe de ser brancas, nem sempre abrigam palavras, provavelmente por causa do método de impressão da época. E o cheiro de vida e história é o mais perto que chegamos, sem nos mexer, do que sentimos quando achamos a maior e mais velha árvore da floresta.

É necessário se acostumar com o português antigo. E pra mim foi desconfortável ler uma ideia de feminidade pouco queer (da época e infelizmente ainda existente hoje). Mesmo assim, o binarismo de gênero é abordado criticamente. O mais fascinante do livro é o feminismo interseccional tão a frente de seu tempo. Maria Lacerda reconhece o que hoje chamamos de feminismo branco; a mulher burguesa que não se preocupa com a justiça social, e a mulher que visa inserir-se no mundo machista da guerra e do Estado, ao invés de combatê-lo. Para ela, reconhecer o classismo e ser contra o Estado já eram coisas inseparáveis da ideia de ser contra o sexismo, isso mais que 50 anos antes de Crenshaw nos ter apresentado ao termo “interseccionalidade”.

É importante reconhecer que nós no Brasil consumimos ideias do “exterior” e invisibilizamos conhecimento e pensadoras daqui. O eurocentrismo é uma força multi-centenária que todos e todas nós internalizamos, independentemente de atuais afiliações politicas. Livros de Maria Lacerda de Moura não foram traduzidos, ou até mesmo republicados, enquanto textos de pensadores (predominantemente homens, brancos, ocidentais) são reproduzidos e traduzidos incessantemente por décadas. Não acredito em momento algum que isso seja associado à relevância histórica e política do trabalho dela, mas sim um resultado da inegável força de invisibilização histórica exercida pelo Patriarcado neo-colonial.

Lucy Parsons, assim como Maria Lacerda, é uma mulher que deve ser urgentemente removida da obscuridade. Esse ano, 2018, o New York Times admitiu que seu obituário, desde 1851, tem sido dominado por homens brancos, e criou um tipo de coluna dedicada a mulheres que foram negligenciadas e omitidas.

“[Q]uem é lembrado[(a)] – e como – inerentemente envolve julgamento. Olhar para trás nos arquivos obituários, portanto, pode ser uma dura lição de como a sociedade valorizava várias conquistas e conquistadores”. (Amisha Padnani e Jessica Bennett)

A desconstrução desse processo misógino e racista de julgamento de valor é muito recente. Está acontecendo tarde, e devagar. Portanto, é nossa responsabilidade interromper a invisibilização de mulheres, e negros e negras, da conjuntura política anarquista. Por que quando homens, predominantemente brancos, fazem afirmações políticas com as quais não concordamos, ainda os citamos como pensadores importantes? Enquanto mulheres, especialmente negras, não só não são citadas, não são vistas, e têm suas existências apagadas ou escritas na história da perspectiva de um homem.

A Inimiga da Rainha é a nossa iniciativa de combate à subjugação de mulheres revolucionárias; combate à invisibilização e silenciamento de nossas vozes, e das vozes de nossas ancestrais.

Combatendo a invisibilidade: Lucy Parsons

Lucy Parsons nasceu em 1853, provavelmente escravizada, no Texas (EUA). Mais tarde entrou no movimento operário e se mudou para Chicago, a cidade onde morreu aos 89 anos de idade (em 1942). Ela escrevia para o jornal que seu marido Albert editava chamado The Alarm (“O Alarme”). Não só escrevia, mas organizava trabalhadores e era uma grande oradora.

Em 1886, ela foi uma figura primordial na luta épica anarcossindicalista que resultou na morte de 4 pessoas, 7 policiais, e onde vários foram feridos e presos: a Revolta de Haymarket. A “jornada de oito horas de trabalho” em Maio de 1886 foi um confronto fatal entre trabalhadores (as) e policiais- mãos do Estado capitalista. No fim de 1887, depois de um longo e doloroso processo legal de investigação, seu marido foi brutalmente executado, ao lado de 3 outras lideranças anarquistas e sindicais, por seu envolvimento na revolta- um fenômeno que até hoje é imortalizado no feriado de 1º de Maio, mas infelizmente não é propriamente lembrado.

Mesmo depois de tantas tentativas do Estado de interromper o trabalho dessa mulher, sua atuação política não se abalou. Em 1905 ela foi uma das fundadoras de um sindicato de extrema importância, o Industrial Workers of the World (“Trabalhadores Industriais do Mundo”), que até hoje deve nos servir como inspiração de organização revolucionária trabalhista, capaz até de unir forças socialistas e anarquistas.

Emma Goldman e Lucy Parsons tinham conflitos ideológicos que alguns acreditam ser geracionais. O feminismo de Lucy era fundado em princípios da classe trabalhadora, enquanto Emma abstraia o conceito e o aplicava a tudo e em qualquer lugar. Hoje podemos facilmente interpretar isso como uma disputa entre o feminismo interseccional e o feminismo branco. Para Lucy, a opressão do negro, do trabalhador e da mulher vem igualmente da conjuntura capitalista. Enquanto Emma acreditava na libertação da mulher em si, como algo isolado da teoria de classe. Alguns chamariam Emma de burguesa, enquanto outros chamariam Lucy de comunista que prioriza a luta classe sobre a da mulher.

Olhar pra história nos ajuda a evitar a constante reinvenção da roda como se fosse novidade. O que podemos reconhecer agora é que o Anarquismo tem sido um campo político hostil pra segmentos racialmente marginalizados da população, como praticamente todos os campos eram, e de alguma forma ainda são. Analisar o porque disso é essencial para podermos desconstruir e desaprender esse comportamento prejudicial. A incapacidade de reconhecer uma outra realidade é o que causou tanta animosidade entre essas duas grandes pensadoras anarquistas. Ser feminista sem ser anticapitalista e antirracista não significa nada, e se não esperamos de nossos e nossas pensadores e pensadoras um claro posicionamento em relação a isso, nós temos um problema. Um problema que manterá o campo ideológico anarquista ruidosamente burguês e branco.


Mirna Wabi-Sabi

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é editora do site Gods&Radicals, e escreve sobre anti-capitalismo, decolonialidade, e feminismo.


Translation

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Fighting Invisibility: Maria Lacerda

When I heard about Maria Lacerda de Moura for the first time I could only find short excerpts from her texts on the Internet, and nothing translated to English. When I finally returned to Brazil, I looked for an anarchist library hoping I could hold a book of hers and read it. And that’s exactly what happened. The edition of “Compulsory military service for women? I refuse! I denounce!” (Serviço militar obrigatório para mulheres? Recuso-me! Denuncio!) is epic; fragile and immortal at the same time. The hard, rough, red cover was definitely brighter and more vibrant 80 years ago. The thick, brittle and far from white pages do not always contain words, probably because of the printing method of the time. And the scent of life and history is the closest we come, without moving, from what we feel when we find the largest and oldest tree in the forest.

The old Portuguese takes some getting used to. And for me it was uncomfortable reading a less-than-​​queer idea of femininity (of the time and unfortunately still existent today). Even then, she approaches gender-binarism critically. The most fascinating thing about the book is the intersectionality so far ahead of its time. Maria Lacerda recognizes what we now call white feminism; the bourgeois woman who does not care about social justice, and the woman who seeks to insert herself in the sexist world of war and the State, instead of fighting it. For Lacerda, recognizing classism and being against the State were already inseparable from the idea of ​​being against sexism.

It’s important to recognize that in Brazil we consume ideas from the “outside” and we invisibilize local knowledge and thinkers. Eurocentrism is a multi-centennial force that we all internalize, regardless of current political affiliations. Maria Lacerda de Moura’s books were not translated, or even republished, while texts of thinkers (predominantly men, white, westerners) are reproduced and translated incessantly for decades. I don’t believe at all that this is associated with the historical and political relevance of her work, but rather a result of the undeniable historical erasure of women of color within the neo-colonial Patriarchy.

This year, 2018, the New York Times admitted that its obituary, since 1851, has been dominated by white men. So they created a kind of column dedicated to women who were neglected and omitted.

“[W]ho gets remembered — and how — inherently involves judgment. To look back at the obituary archives can, therefore, be a stark lesson in how society valued various achievements and achievers.”

(Amisha Padnani and Jessica Bennett, March 8, 2018)

The deconstruction of this misogynist and racist judgment of value is very recent. It’s happening late, and slow. Therefore, it’s also our responsibility to combat the invisibility of women, black, and indigenous peoples within the anarchist political landscape. Why when men, predominantly white, make political statements with which we do not agree, do we still call them important thinkers? While women, especially black women, are not only not cited, they are not seen, and their lives are erased or re-written from the perspective of a man?

The magazine The Enemy of the Queen; based in Salvador, Brazil; of which the 2nd issue was published this month, is an initiative to fight the subjugation of revolutionary women, and to combat the invisibilization and silencing of our voices, and the voices of our ancestors.

Fighting Invisibility: Lucy Parsons

Lucy Parsons, like Maria Lacerda, is a woman who must be urgently removed from obscurity. For the many of you who already know plenty about her, also know that it’s due to the militant (DIY) efforts of very few of us in Brazil that some of her work is available in (BR) Portuguese and distributed at all. Her story has immense power for us here now, especially in the city known as the capital of the African Diaspora (Salvador), in a country on the brink of completely losing its faith in “democracy”.

Reading the words written by a black anarchist woman born in 1853, probably enslaved in Texas, can send chills down one’s spine. She entered the labor movement and moved to Chicago, where she wrote to the newspaper that her husband Albert edited called The Alarm. Not only did she write, but she organized workers and was a great public speaker.

In 1886, she was a prominent figure in the epic anarchist struggle where many were killed, wounded, and imprisoned: the Haymarket Affair. The demonstration of the “eight-hour movement” in May 1886 was a fatal confrontation between workers and the police – hands of the capitalist state. At the end of 1887, after a long and painful legal process of investigation, her husband was brutally executed, alongside 3 other anarchist and union leaders, for their involvement in the revolt – a phenomenon that until today is immortalized on the 1st of May, but unfortunately not thoroughly remembered.

Even after so many attempts by the state to interrupt this woman’s work, her militancy was not shaken. In 1905 she was one of the founders of the Industrial Workers of the World, which to this day should serve as an inspiration for revolutionary labor organizations, capable even of joining socialist and anarchist forces.

When it comes to anarchist feminism, Emma Goldman and Lucy Parsons had ideological conflicts that some believe to be generational. Lucy’s feminism was founded on working-class principles, while Emma applied the concept to the relationship between womanhood and love. For Lucy, the oppression of “the Negro“, the worker, and the woman comes directly from Capitalism. While Emma believed in the liberation of the woman herself, as something separate from the class struggle. In other words, Emma was called bourgeois, while Lucy a communist who prioritized class struggle over that of the woman.

All this might be redundant to some of you, but looking at history from the perspective of others helps us avoid the constant reinvention of the wheel as if it were new. What we can now recognize is that Anarchism has been a hostile political field to racially marginalized segments of the population, as virtually all fields were, and somehow still are. Analyzing why this is is essential so that we can unlearn this harmful behavior. The inability to recognize another’s reality is what has caused so much animosity between these two great anarchist thinkers. Being a feminist without being anti-capitalist and anti-racist means nothing, and if we don’t expect from ourselves and our revered thinkers a clear stance on this, we have a problem. A problem that will keep the anarchist ideological field deafeningly bourgeois and white.


Mirna Wabi-Sabi

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is co-editor of Gods&Radicals, and writes about decoloniality and anti-capitalism.


Hey! We pay Mirna and others for their articles. We’re one of the few pagan or anti-capitalist sites to do this. 🙂

Here’s how you can help us do that!

Urbancentrism

“For me, there is a social disease that, I do not know if it is identified by science as “official” but, I usually call URBANCENTRISM. It prevents people from seeing beyond the structure of large cities, as if there was a huge dome around the metropolis that prevents access to other places, or that transforms other places into utopias disconnected from reality which can be accessed only from time to time in dreams”

From InfoGuerra

English Translation here.

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Urbanocentrismo

Pra quem nasceu e cresceu na metrópole é bem comum a convivência com uma gigantesca diversidade e interatividade entre culturas e com uma vasta disponibilidade de informação circulando das mais diversas formas, assim como a rápida transformação dos costumes, das tecnologias, das ruas…

Pra quem nasceu e cresceu, e que veio ou vive nos interiores em que a urbanização não é tão latente, tudo isso é muito mais difícil de ser acessado, conquistado e assimilado. É por isso que damos tanto valor à coisas que pra muitas pessoas parecem ser minúsculas ou ridículas e que pra nós são grandiosas. Para os meus antepassados, a contemplação é algo fundamental e a fugacidade, a velocidade com a qual as coisas se desmancham na metrópole, muitas vezes é aterrorizadora. A valorização do que é construído de forma lenta, mas “bem feita”, observando os mínimos detalhes é muito mais importante do que se entupir de mil tarefas e informações e não conseguir dar conta de tudo. O que inclusive é fonte de diversas doenças modernas.

Para as migrantes e para os migrantes que vêm de uma realidade pobre do interior, a discriminação contra seus costumes, sotaque, cor, vestimenta, pensamentos e práticas é uma ameaça constante. Mas como a maioria se arrisca na Babilônia sem ter respaldo de alguém que pode fortalecer quando o bicho pega, acabam aprendendo à gingar, à dissimular, à jogar com essas discriminações, se adaptando ao que a nova realidade pede. Muitas e muitos acabam abandonando seus costumes com o passar do tempo e recarregam suas antigas práticas ao se reencontrarem com outras e outros migrantes. Outras e outros carregam consigo a melancolia somada com a sensação de derrota por não conseguir retornar pra casa com a missão cumprida e com a conquista nas mãos. Muitas e muitos acabam indo morar nas ruas, por falta de assistência. Muitas e muitos morrem, assassinados por uma violência urbana ao qual não estão acostumadxs. Algumas e alguns conseguem alcançar lugares de prestígio e experimentar e compartilhar privilégios já com a meia idade chegando, depois de terem doado toda uma vida de sangue e suor e comprometido todas as suas economias em parcelamentos extensos que lá na frente se tornam as dívidas que, se não houver cuidado, levam à falência.

Sinceramente, eu não conheço nenhuma família que veio de onde eu vim e de outros interiores que conheci que não tenham um histórico de batalha e sobrevivência em condições extremas e mantenho um pensamento de revolta e combate contra a discriminação direcionada à essas pessoas que são invisibilizadas no cotidiano da metrópole.

Pra mim, existe uma doença social que eu não sei se é identificada pela ciência tida como “oficial”, mas que eu costumo chamar de URBANOCENTRISMO, que impede as pessoas de conseguirem enxergar para além da estrutura das grandes cidades, como se houvesse uma enorme redoma ao redor da metrópole que impedisse o acesso a outros lugares ou que transformasse os outros lugares em utopias desconectadas da realidade e que só podem ser acessadas de vez em quando nos sonhos. Sonhos estes que dão origem às máfias turísticas que fazem das paisagens dos interiores um produto de consumo acessível para quem tem muita grana. Sonhos estes que transformam as nascentes dos rios em poços de veneno e chorume despejado pelo agronegócio que abastece a metrópole. Sonhos estes que escravizam a mão de obra de meus manos que tão disputando uma diária de pouco mais de 30 conto no monopólio da banana que abastece a metrópole, fazendo serviço triplo: batendo veneno, cortando cachos maduros e transportando até os caminhões.

Eu sou migrante e também sofro com as sequelas causadas pelo urbanocentrismo. Uma vez um mano me disse que “o conhecimento é extremamente importante, mas nós precisamos ter cuidado pra não viajar demais nas idéias e esquecer de nossas raízes”. Infelizmente, de alguma forma, também sou infectado por esta doença. Mas não posso deixar que ela tome meu corpo e minha mente por completo. Pra isso preciso manter meus pés no chão, próximos às minhas raízes. Sempre em contato com quem também é migrante, com quem veio e com quem vive na mesma realidade da qual eu vim. E mais do que isso, observar, estudar e tentar compreender a estrutura de dominação que força minhas conterrâneas e conterrâneos à abandonarem seu local de origem. Observar, estudar e tentar compreender a história e a ancestralidade dos lugares e das pessoas que me ensinaram à caminhar e a lutar por minha vida.


ZAT Cinzenta

Editora/produtora independente e selo de divulgação/distribuição de material subterrâneo e libertário.


Translation

ITACIRA-12-JUL-FB-2

Urbancentrism

For those born and raised in the metropolis, it is very common to live with huge diversity and interaction between cultures, with vast availability of information circulating in the most diverse ways, as well as the rapid transformation of behaviors, technologies, streets…

For those born and raised, and who came or live in the inland where urbanization is not so latent, all of this is much more difficult to be accessed, conquered, and assimilated. That’s why we give so much value to things that to many people seem to be tiny or ridiculous; for us they are great. For my ancestors, contemplation is fundamental, and fugacity, the speed with which things break down in the metropolis, is often terrifying. Valuing what is built slowly but “well,” observing the smallest details is far more important than clogging up a thousand tasks and information and failing to account for everything. This is also the source of several modern diseases.

For migrants who come from poor conditions inland [into the city], discrimination against their customs, accent, color, dress, thoughts, and practices is a constant threat. But as most take a chance in Babylon without having the backing of someone for support when things get rough, they learn to dribble, to dissemble, to play with these discriminations, adapting to what the new reality demands. Many end up abandoning their customs over time and recharging their old practices by rejoining other migrants.

Others carry with them melancholy of defeat for not being able to return home with the mission accomplished, and the conquest in hand. Many end up living on the streets for lack of assistance. Many die, killed by urban violence to which they are not accustomed.

Some manage to reach places of prestige and experience, and share privileges with middle age already arriving, after having donated a whole life of blood and sweat, and having compromised all their earnings in extensive installments, that in the end become the debts, that, if not careful, lead to bankruptcy.

Honestly, I don’t know of any family that came from where I came from, or other cities inland, that do not have a history of battle and survival in extreme conditions, and I maintain a revolt and anti-discrimination thought directed at those people who are invisible in the metropolis.

For me, there is a social disease that, I do not know if it is identified by science as “official” but, I usually call Urbancentrism. It prevents people from seeing beyond the structure of large cities, as if there was a huge dome around the metropolis that prevents access to other places, or that transforms other places into utopias disconnected from reality which can be accessed only from time to time in dreams. These dreams give rise to the tourist mafias that make the landscapes of the inland an affordable product for those who have a lot of money. These dreams turn the rivers’ springs into poison and sludge wells dumped by the agribusiness that supplies the metropolis. These dreams enslave the workmanship of my hands, that compete for a little more than 10 bucks (30 reais) daily in the Banana Monopoly that supplies the metropolis, doing triple service: surviving poison, cutting ripe chunks, and transporting to the trucks.

I’m a migrant and I also suffer from the consequences caused by Urbancentrism. Once a buddy told me that “knowledge is extremely important, but we must be careful not to travel too much in ideas and forget our roots.” Unfortunately, somehow, I am also infected by this disease. But I can not let her take my body and my mind completely. For this I need to keep my feet on the ground, close to my roots. Always in contact with who is also a migrant, with whom they came and with whom they live in the same reality from which I came. And more than that, to observe, to study, and to try to understand the structure of domination that forces my countrymen and women to leave their place of origin. Observe, study and try to understand the history and ancestry of places and people who taught me to walk and fight for my life.


InfoGuerra


Gods&Radicals would like to know how we’re doing. Mind taking a four-minute survey?

What’s Pan-africanism got to do with Marxism?

“The fight against Eurocentrism, a thing which does not allow for a life with dignity, is a struggle against the naturalization of racial oppression in the social condition of the worker. For this reason, Pan-Africanism is a necessary understanding of class struggle.”

From Mirna Wabi-Sabi

Texto em Português (BR) aqui.

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A wall with all white male presidents of the Brazilian Bar Association (OAB), and the day’s lecturer Dr. Silvio Luiz de Almeida.

In the second to last week of August, the Faculty of Law of the Federal University of Bahia, in Salvador, hosted the first cycle of a course on Marxism and Pan-Africanism. This course will be a recurring initiative to discuss concepts and disseminate knowledge not only for law students in the university. From the 20th to the 23rd, the doors of the main auditorium were open to everyone with an interest in the event, free of charge. It was not just a lecture on the perspective of black women, on the history of white supremacy and capitalism, or on the meaning of Pan-Africanism. It was a meeting of exchange that brought together speakers, teachers, poets, students, writers, artists and more, many of whom were not always welcome in that space. Due value must be given to the initiative to address anti-capitalist and anti-racist issues and practices in the academic environment where Brazilian Law is researched and enforced.

On the first day of the course, before the lecture of Dr. Lindinalva de Paula, there was a warm welcome from the table and exciting performances of theater and poetry. The topic of the lecture, the perspective of black women on Pan-Africanism, was fully expressed in everyone’s chest when Sophia Araujo stepped on stage and presented her poetry- in the presence of her daughter named Dandara (also the name of a notorious enslaved woman of the 17th century). The bridge between the reality of the streets today, and the theoretical debate of centenary ideologies, has materialized in an environment that has been historically hostile against both.

One of the participants at the beginning of the event stated not only the relevance of us being there, but the obligation we have to occupy that space. She reports that in that same room she has been booed for defending affirmative action, and many have been booed for trying to address anti-racism. Combating institutional racism needs the production of anti-racist knowledge, bringing other non-European rationalities to the academic environment. This means not only studying, but transforming.

“Until the lions have their own historians, hunting stories will continue to glorify the hunter.” (Eduardo Galeano)

Leno Sacramento, from the Olodum Theater, presented a shocking performance on police oppression, addressing the psychological and physical violence that compose our incessant denunciations against the genocide of black people. Nor can we forget the invisibilisation and ideological silencing of black and indigenous peoples, reinforced by epistemic-genocide, which brings us the famous phrase “death begins before the shot” (Pedro Borges).

The event was not restricted to the urban context, a link between the rural area and the urban area was also forged. There was a representative affirmation of Union power in contrast to the corporate one. And the presence of members of the Landless Workers Movement (MST) brought to the table the struggle of black peasants. Therefore the symbiosis of land, class, and race was demonstrated in theoretical and practical ways.

“I am landless / I am poor / I am black / I am a revolution” (Raumi Souza, musician and MST member)

Dr. Lindinalva de Paula’s talk had a simple and indispensable message: Together, black women go further. Alone they may walk fast, but even with all their titles, it is a trap. “Our steps come from afar,” she said, referring to all the black women who came before us, and made our way possible today. They were part of a feminism that was not Eurocentric, that burned no bras, and was not ignorant of Africa. They had different guidelines; for example, daycare, which was not a white feminist agenda because they had access to basic health, and when they got pregnant they could hire a black woman to help. In the periphery, and before, black women were already feminists.

“We did not become feminists, we did not know we were doing feminism all along.” (Dr. Lindinalva de Paula)

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The following day, the lecture by Dr. Muniz Gonçalves Ferreira also addressed the issue of the black movement’s dialogue with whiteness, only from a more Marxist perspective. In contrast to the previous speaker, who at no point demonstrated any value in the political collaboration between black women and white feminists, he argued that despite the position of undeniable whiteness from which Marx and Engels spoke, they did not reproduce the racism of their time. At least not after a certain point in their careers. Therefore, for him, there is no contradiction in adopting the philosophies of these thinkers in the anti-racist or Pan-Africanist struggle.

Before the course began, attendees received an email with a video of a debate that clearly shows the tense divergence within the Pan-africanist movement between Afrocentric and Marxist thinkers. Eurocentrism, as a worldview where racism is put into practice, has no place in Pan-africanist doctrine. While Afrocentrics believe that adopting Marxism means giving space to a Eurocentric doctrine, Marxists such as Dr. Muniz Gonçalves Ferreira believe that Marx and Engels overcame their inherited Eurocentrism and fought against racism.

“Were Marx and Engels racist?” To the lecturer, no. They undoubtedly studied the texts of people contaminated by ‘ethnocentrism’, such as Hegel, who believed that world history was an evolutionary process from the East to the West, concluding that Africa, having a stateless people, had no history. They were not only European intellectuals, but they were German, in a colonial and enslaver period that oppressed even the peripheries of their own continent (the Slavs), but eventually they joined the struggle against slavery and against colonialism.

If Marx and Engels’ struggle against slavery and colonialism was indeed an anti-racist act, it remained open. They stood in favor of anti-colonial revolts in India and China, defending them as strategies proportional to the violence of capitalism and colonialism. They also defended the North in the U.S. civil war, denouncing biased journalism in Britain that had economic interests in cotton production in the South. Marx even “let” his daughter marry a Haitian of Afro-descent. That is what it means to be anti-racist in the 19th century, even if these are no longer our standards for determining whether someone is racist or not today. Unfortunately, the lecturer hinted that racism was once more palpable back then, and that our criteria for categorizing racism today is subjective; it is enough to say that African paganism is “of the devil”.

This reading does not work for everyone. A member of the audience questioned whether these arguments are enough to determine whether or not someone was racist. Being abolitionist, at that time, was a position held by many who had interests far from being the destruction of white supremacy. Having a black relative also means nothing, since even Bolsonaro tried to use this argument to reassure that he is not racist. Others have brought the question of how racism persisted after socialist revolutions in Cuba and Russia. And the Afrocentric Pan-africanist organization React or Die asked to have their flag removed from the event, but maintaining cordial relations and organizers of the course demonstrating full support for their VI International March Against the Genocide of the Black People that happened 4 days later, August 25th, and to the “Don’t Vote, React!” campaign.

Since the 19th century, racism has not ceased to be palpable and real. From medical genocide, necropolitics, mass incarceration, to police violence, our criteria for denouncing racism still holds immense weight on the bodies of black people in Brazil. A Marxism that is not anti-racist is possible, but for the speaker, being a Marxist without being anti-racist is an appropriation of the term. An anti-racism that is not Marxist is unquestionably embraced, since our goal is human emancipation and we fight against all forms of oppression. We do not have to be Marxist to be anti-capitalist. Other anti-capitalist guidelines are more than welcome.

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Soviet Poster (1960)

Dr. Silvio Luiz de Almeida, the speaker the following 3 days of the course, presented a different perspective on the relationship between Eurocentrism and Marxism. What Marxism and Pan-Africanism have in common is that they are effective ideologies in dealing with historical moments of conflict. It’s not possible to essentialize the two ideologies. There is no homogeneity, there is history. The movement of history is one of transformation and conflict.

Some say they don’t want to read white writers, but those who kill us have only what to gain from that. “They are horrible indeed,” he said, but it is not consistent to read Fanon without reading Hegel, for example. Even though Hegel had extremely ethno / Eurocentric rhetoric, and undeniably racist stances, he also introduced us to the dialectic between the master and the enslaved.

W.e.b. Du Bois was the first black man with a Harvard doctorate. Without theory, practice submits itself to the immediate. But Marxism has nothing to teach the worker. “Theory of the Strike?” Uniting theory and practice, intellectuals and politicians, means joining the agenda of thought with political practice, since the transformation of the world depends on us understanding the world.

At the same time, the act of transformation transforms the practitioner: Praxis. The future must be built and can be transformed. In the midst of many fantastic examples and analyzes, perhaps the most striking example of the union of theory and practice, praxis, and transformation, was the presentation of the concept of naturalization of the condition of exploitation.

Naturalizing the social condition of the worker happens through the Capitalist ideology. Their condition is naturalized within the system by the social division of labor, which depends on race and gender. These social relations are concrete. They are social relations that give meaning to things. Therefore, the relationship between Africa, race, slavery, and blackness is a socialization. Race itself is a historical creation. Racism created the black, and created its antithesis, the white. The fight against Eurocentrism, a thing which does not allow for a life with dignity, is a struggle against the naturalization of racial oppression in the social condition of the worker. For this reason, Pan-Africanism is a necessary understanding of class struggle.

Jal Souza, one of the attendees, explains this phenomenon wonderfully from his personal perspective:

“While the children of the elite study to develop critical thinking, young working-class people are committed to increasing the small profit of the family, and thus are not allowed intellectual development. I remember a youth, poor financially, where to open a book was seen as an act of pure entertainment and laziness, for there is no value recognized in those words but rather contempt. Time spent reading should be employed in paid work. The irrelevance of the study and relevance of basic manual labor makes it difficult for boys and girls from the peripheries to see themselves in educational institutions. Therefore, they occupy the positions of worse remuneration and greater physical effort, without representation in political organizations, and without knowing how to claim and conquer rights. Rich and white men, those who are most interested in keeping the mechanisms of the system in place, decide the future of all.” (Jal Souza)

While Marxism makes contact with reality by piercing to ideology, structural racism is the social fabric that sustains institutions. We can advance in isolated institutional contexts, without even beginning to change this structure. Racism consists not only of conscious actions, but also of the unconscious ones, those in the economic, political, and subjective level. In fact, the “demonization” of African cultures leads black people to lose identity and to accept the structure as natural and immutable.

The last day of the lecture took place in the Brazilian Bar Association, the institution where the abolition of slavery was discussed in Brazil. Dr. Silvio Luiz de Almeida again shared a moving and inspiring speech, this time on the legacy of the thinker, artist, and now officially lawyer, Luiz Gama.

Slavery has different moments, and Luis Gama lived during the most brutal of them. He was a lawyer for enslaved people, and accused the public power, the empire, putting it in the press and using public opinion in his favor. In 1881 there was a lynching of 4 enslaved whom he considered heroes. Those people were lynched because they killed their “lord.” Luis Gama boldly stated publicly that it is important to be radical against an evil that is even more radical, and that these enslaved men killed in self-defense. Killing the master is self-defense. This led him to be persecuted. His story is active resistance.

Luiz Gama is an idea. An idea that materialized there at that moment, in that room in the Brazilian Bar Association. “His story is in each one of us.” (Dr. Silvio Luiz de Almeida)


Mirna Wabi-Sabi

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is co-editor of Gods&Radicals, and writes about decoloniality and anti-capitalism.


Gods&Radicals would like to know how we’re doing. Mind taking a four-minute survey?


TRADUÇÃO PORTUGUÊS

Para Além dos Muros: A Academia e o Debate Antirracista

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Na penúltima semana de Agosto, a Faculdade de Direito da UFBA hospedou o primeiro ciclo de formação do curso de Marxismo e Pan-Africanismo. Esse curso será uma iniciativa recorrente de debater e disseminar conhecimento, não só para alunos(as) de direito na universidade. Do dia 20 a 23, as portas do principal auditório estavam abertas para todos e todas com interesse no evento, gratuitamente. Não foi apenas uma palestra sobre a perspectiva de mulheres negras, sobre a historia da supremacia branca e do capitalismo, ou sobre o significado de Pan-africanismo. Foi um encontro de aprendizado e troca que reuniu palestrantes, professores(as), poetas, alunos(as), escritores(as), artistas e mais, muitos dos quais nem sempre foram bem-vindos naquele espaço. Devido valor deve ser dado à iniciativa de abordar os temas e práticas anti-capitalistas e antirracistas no ambiente acadêmico onde pesquisa-se e aplica-se a Lei.

No primeiro dia de curso, antes da palestra da Dr. Lindinalva de Paula, houve um caloroso bem vindo da mesa e apresentações emocionantes de teatro e poesia. O tópico da palestra, a perspectiva das mulheres negras sobre o Pan-africanismo, foi expresso em completo no peito de todos e todas quando Sophia Araújo subiu no palco e apresentou suas poesias- na presença de sua filha chamada Dandara. A ponte entre a realidade das ruas hoje, e o debate teórico de ideologias centenárias, se concretizou em um ambiente que foi historicamente hostil contra os dois.

Uma das participantes da mesa no inicio do evento afirmou não só a relevância de estarmos ali, mas a obrigação que temos de ocupar aquele espaço. Ela relata que naquela mesma sala ela ja foi vaiada por falar de cotas, e muitos já foram vaiados por tentar abordar o tema de antirracismo. Combater o racismo institucional demanda a produção de conhecimento antirracista, trazendo outras racionalidades não européias pra conjuntura acadêmica. Isso significa não só estudar, mas transformar.

“Até que os leões tenham seus próprios historiadores, as histórias de caçadas continuarão glorificando o caçador.” (Eduardo Galeano)

Leno Sacramento, do Teatro do Olodum, apresentou uma peça impactante sobre opressão policial, abordando a violência psicológica e física que compõe nossas incessantes denúncias contra o genocídio do povo negro. Também não podemos esquecer da invisibilisação e silenciamento ideológico de povos negros e indígenas, reforçado pelo epistemicídio, que nos traz a famosa frase “a morte começa antes do tiro” (Pedro Borges).

O evento não se restringiu ao contexto urbano, um vinculo entre a zona rural e a zona urbana também foi forjado. Houve afirmação representativa do poder sindical em contraste ao corporativo. E a presença de membros do MST trouxe à mesa a luta de camponeses e camponesas negras. Portanto a simbiose de terra, classe e raça foi demonstrada de forma teórica e prática.

“Sou sem terra / sou pobre / sou negão / sou revolução” (Raumi Souza, músico e membro do MST)

A palestra da Dr. Lindinalva de Paula teve uma simples e indispensável mensagem: Juntas, as mulheres negras andam mais longe. Sozinhas talvez andam rápido, mas mesmo com todos os seus títulos, é cilada. “Seus passos vem de longe”, ela falou, referindo-se a todas as mulheres negras que vieram antes de nós, e possibilitaram esse caminho hoje. Winnie Mandela, Amy Jacques Garvey, Lélia Gonzalez, Assata Shakur, Anna Júlia cooper são algumas delas. Unir mulher e raça significa reconhecer que existem feminismos (em plural). Existe um feminismo que não era branco eurocentrado e que queimava sutiã, já que haviam mulheres que nem usavam sutiã. Esse feminismo completamente desconhece a África, e não tem as mesmas pautas. Creche, por exemplo, não é pauta da feminista branca porque que ela tem acesso à saude básica, e quando engravidava tinha como contratar uma negra pra ajudar. Na periferia e antes, as mulheres negras já eram feministas.

“Não nos tornamos feministas, não sabíamos que estávamos fazendo feminismo o tempo todo”. (Dr. Lindinalva de Paula)

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No dia seguinte, a palestra do Dr. Muniz Gonçalves Ferreira também abordou a questão do diálogo do movimento negro com a branquitude, só que de uma perspectiva mais propriamente Marxista. Em contraste com a palestrante anterior, que em momento algum demonstrou valor na colaboração politica entre mulheres negras e feministas brancas, ele argumentou que apesar da posição de inegável branquidade da qual Marx e Engels falavam, eles não reproduziam o racismo de seu tempo. Pelo menos não depois de um certo período de suas carreiras. Portanto, pra ele, não ha contradição alguma em adotar as filosofias desses pensadores na luta antirracista, ou Pan-Africanista.

Antes do curso começar, inscritos e inscritas receberam um email com o video de um debate que mostra claramente a tensa divergência dentro do movimento Pan-africanista entre Afrocêntricos e Marxistas. O Eurocentrismo, como uma visão do mundo onde o racismo é colocado em prática, não tem espaço na doutrina pan-africanista. Enquanto Afrocêntricos acreditam que se reivindicar Marxista significa dar esse espaço para uma doutrina Eurocentrica, Marxistas como Dr. Muniz Gonçalves Ferreira acreditam que Marx e Engels superaram seu Eurocentrismo herdado, e lutaram contra o racismo.

“Marx e Engels eram racistas?”, pra o Dr. não. Sem duvida eles estudavam textos de pessoas contaminadas pelo “etnocentrismo”; como Hegel, que acreditada que a história mundial era um processo evolutivo do oriente em direção ao ocidente, concluindo que a Africa, por ter um povo sem estado/civilização, não tinha historia. Eles eram dois intelectuais não só europeus, mas alemães, em um período colonial e escravagista que oprimia até as periferias de seu próprio continente (os eslavos). Mas eventualmente eles se uniram à luta contra a escravidão, e contra o colonialismo.

Se a luta de Marx e Engels contra a escravidão e o colonialismo foi de fato um ato antirracista ficou em aberto. Eles se posicionaram a favor de revoltas anti-coloniais na India e na China, as defendendo como estratégias proporcionais a violência do capitalismo e do colonialismo. Também defenderam o Norte na guerra civil Norte Americana, denunciando o jornalismo tendencioso na Inglaterra que tinham interesses econômicos na produção de algodão no Sul. Marx até “deixou” sua filha casar com um afro-descendente haitiano. Isso é o que significa ser antirracista no século 19, mesmo que esses não sejam mais nossos padrões para determinar se alguém é racista ou não hoje. Infelizmente, ele insinuou que o racismo antigamente era mais palpável, e que nosso critério pra categorizar racismo hoje em dia é subjetivo; basta falar que “o Candomblé é do diabo”.

Essa leitura não funciona pra todos. Um membro da audiência questionou no bloco de perguntas se esses argumentos são o suficiente pra determinar se alguém era ou não era racista. Ser abolicionista, naquela época, era um posicionamento mantido por muitos que tinham interesses longe de ser a destruição da supremacia branca. Ter um familiar negro também não significa nada, já que até Bolsonaro tentou usar esse argumento pra afirmar que não é racista. Outros trouxeram a questão do racismo que persistiu após revoluções socialistas em Cuba e na Russia. E a organização Pan-africanista Afrocêntrica Reaja ou será Mortx pediu para ter sua bandeira removida do evento, mas mantendo relações cordiais e organizadores do curso demonstrando completo apoio à VI Marcha Internacional Contra o Genocídio do Povo Negro que aconteceu 4 dias depois, dia 25 de Agosto, e à campanha “Não Vote, Reaja!”.

Dês do século 19, o racismo não deixou de ser palpável. Do genocídio hospitalar, necropolítica, encarceramento em massa, à violência policial, nossos critérios para denunciar racismo ainda segura um peso imenso nos corpos de negros e negras no nosso país. Um Marxismo que não seja antirracista é possível, mas para o palestrante, ser marxista sem ser antirracista é uma apropriação do termo. Um antirracismo que não seja Marxista é inquestionavelmente abraçado, já que o nosso objetivo é a emancipação humana e lutar contra todas as formas de opressão. Não precisamos ser Marxistas pra ser anti-capitalistas. Outras pautas anti-capitalistas são bem vindas.

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Dr. Silvio Luiz de Almeida, o palestrante não só do dia seguinte mas dos 3 dias seguintes do curso, apresentou uma perspectiva diferenciada sobre a relação do Eurocentrismo com o Marxismo. O que o Marxismo e o Pan-africanismo tem em comum é que são ideologias eficazes ao lidar com momentos históricos de conflito. Não é possível essencializar as duas ideologias. Não existe homogeneidade, existe história. O movimento da História é de transformação e conflito.

Alguns falam que não querem ler autores brancos, mas “quem nos mata só tem a ganhar com isso”. “Eles são horrorosos mesmo”, ele disse, mas não é coerente ler Fanon sem ler Hegel, por exemplo. Mesmo Hegel tendo seus posicionamentos extremamente etno/euro-cêntricos e inegavelmente racistas, foi ele também que nos apresentou a dialética entre mestre e escravizado.

W.e.b. Du Bois foi o primeiro negro com doutorado de Harvard. Sem a teoria, a prática se submete ao imediato. Mas o Marxismo não tem nada a ensinar ao trabalhador. “Teoria da Greve?” Unir teoria e prática, intelectuais e políticos, significa unir a pauta de compreensão com a prática política, já que a transformação do mundo depende de nós entendermos o mundo.

Ao mesmo tempo, a ação transformadora transforma o praticante: Praxis. O futuro deve ser construído e pode ser transformado. Em meio de muitos fantásticos exemplos e analises, talvez o mais impactante exemplo de união de teoria e pratica, práxis, e transformação, foi a apresentação do conceito de naturalização da condição de explorado.

Naturalizar a condição social do trabalhador acontece pela ideologia Capitalista. Naturaliza-se sua condição dentro do sistema pela divisão social do trabalho, que depende da raça e do gênero. Essas relações sociais são concretas. São relações sociais que dão sentido para as coisas. A relação entre África, raça, escravidão, e negro, portanto, é uma socialização. Raça em si é uma criação histórica. O racismo criou o negro, e criou sua antítese, o branco. A luta contra o Eurocentrismo, uma coisa que não viabiliza uma vida com dignidade, é uma luta contra a naturalização da opressão racial na condição social do trabalhador. Por isso, o Pan-africanismo é uma compreensão necessária da luta de classe.

Jal Souza, um dos ouvintes da palestra, explica esse fenômeno maravilhosamente a partir de sua perspectiva pessoal:

“Enquanto os filhos da elite e dos pequenos burgueses estudam para elevar o pensamento crítico, os jovens da classe trabalhadora estão empenhados em aumentar o pequeno lucro da família, e portanto, não se permitem ao desenvolvimento intelectual. Recordo de uma juventude, pobre financeiramente, onde abrir um livro era visto como um ato de puro entretenimento e preguiça, pois, não ha valor reconhecido naquelas palavras, mas sim desprezo. Aquele tempo gasto com leitura deveria ser empregado em um trabalho remunerado. A medição da sabedoria é medida pela capacidade de ganhar dinheiro, não pelo conhecimento. A irrelevância do estudo e valorização do trabalho básico e braçal faz com que os meninos e meninas das periferias não se enxerguem em instituições de ensino. Portanto, ocupam os postos de trabalhos de pior remuneração e maior esforço físico, sem representação nas organizações políticas, e sem saber reivindicar e conquistar direitos. Permitindo assim, que os homens brancos e ricos, os maiores interessados em manter os mecanismos do sistema vigente, decidam o futuro de todos.” (Jal Souza)

Dia 23 de Agosto foi o lançamento do livro O Que é Racismo Estrutural? do Dr. Silvio Luiz de Almeida, na Senzala do Barro Preto.

O espaço cultural Senzala do Barro Preto é sede do bloco afro Ilê Ayiê, “uma entidade carnavalesca que funciona como centro cultural no bairro do Curuzú, ensinando e difundindo entre os moradores da localidade e regiões próximas à identidade africana, mostrando com orgulho o poder da ancestralidade, religiosidade e construção dos negros no Brasil e internacionalmente.” (Jal Souza)

Enquanto o Marxismo faz contato com a realidade furando a ideologia, o racismo estrutural é o tecido social que sustenta instituições. Podemos avançar em contextos isolados institucionais, sem nem começar a mudar essa estrutura. O racismo não constitui apenas de ações conscientes, mas também das inconscientes, as do nível econômico, político e subjetivo. Aliás, a “demonizaçāo” das culturas africanas leva o negro perder sua identidade e a aceitar a estrutura como natural e imutável.

A performance do grupo indígena Ybytu Emi trouxe a pauta artística, musical, e teatral como expressão das raizes entrelaçadas da comunidade indígena e negra brasileira. Nítido ficou o entrelaço dos índios na vanguarda da proteção da cultura africana no Brasil, no passado, e das religiões afros preservando a cultura indígena, no presente.

E por fim, o ultimo dia de palestra aconteceu na Ordem dos Advogados do Brasil, uma instituição onde discutia-se a abolição da escravatura no Brasil. Dr. Silvio Luiz de Almeida novamente compartilhou um discurso comovente e inspirador, dessa vez sobre o legado do pensador, artista, e agora oficialmente advogado, Luiz Gama.

A escravidão tem momentos diferentes, e Luis Gama viveu durante o mais brutal deles. Ele era advogado pra pessoas escravizadas, e acusava o poder público, o império, colocando na imprensa e usando a opinião pública no seu interesse. Em 1881 houve um linchamento de 4 escravizados que ele considerava heróis. Aquelas pessoas foram linchadas porque mataram o “senhor”. Luis Gama corajosamente afirmou publicamente que é importante ser radical contra um mal que é mais radical ainda, e que esses escravizados mataram em legítima defesa. Matar senhor de engenho é legítima defesa. Isso o levou a ser perseguido. Sua historia é uma resistência ativa.

Luiz Gama é uma idéia. Uma idéia que se materializou ali naquele momento, naquela mesa na AOB. “A história dele esta em cada um e uma de nós.” (Dr. Silvio Luiz de Almeida)


Mirna Wabi-Sabi

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é militante anti-fascista/decolonial, e feminista interseccional. Ela edita o site Gods and Radicals.

The Tragedy of Brazil’s National Museum Started Much Before the Fire

If we’re gonna talk about the carelessness with which we deal with valuable artifacts, we must also talk about how we attach value to those artifacts, and the undeniable Ethno/euro-centrism involved in that process.

From Mirna Wabi-Sabi

Texto em Português (BR) aqui.

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“It’s a National duty to rebuild it from the ashes, even if it is not the original it will forever be a memory of the royal family that gave us our independence.” (Marcelo Crivella, Rio de Janeiro’s Governor)

It’s safe to say the whole country of Brazil was dumbfounded watching the National Museum literally go up in flames, as if it was our turn to be destroyed by the aliens from Independence Day. When it was over, we were all left oscillating in the range of emotions between rage and sorrow, mourning the loss of irreplaceable objects, and 200 years worth of people’s work.

We’ve been careless with our material History and irresponsible in preserving memory for as long as this Museum existed, why are we so upset now? Our indignation seems to come from shame for not living up to an European standard of possessing History.

Ten years ago there was a criminal fire that destroyed an indigenous community not far from where the Museum is, and virtually no one took to the streets. We talk about all the records of Indigenous languages that were lost inside this Colonial building, but what are we doing to the Indigenous people alive here now? We don’t see them as having history, we see them as obstacles for development. This is what truly makes me oscillate in the range of emotions between rage and sorrow, year after year.

Part of the fascination we had with that Museum wasn’t necessarily all the valuable objects that were inside, it’s about who attaches value to these things. The royal atmosphere of the space comes from it being one of the few places with authentic European style architecture in our country. One of the people in their fundraising video from last year said that when you walk up the stairs of the museum you can easily imagine walking into a Gala from the Royal Family, which is why she fell in love with the place.

The National Museum is the oldest scientific institution of Brazil. Let that sink in. Academia, alongside the Monarchy, and the Catholic Church, were Medieval institutions introduced to us hundreds of years ago, that today we still feel the desperate need to preserve without properly accessing the genocidal role they’ve played in our lives. While I see the tragedy of the event and feel the horror of the loss, I think it’s important to address our internalized Eurocentric views that lead us to believe Europe and European institutions are the havers and holders of History.

The concept of what it means to be a Human being, as developed in Western Europe in the 16th century, was very much tied to the idea of Having history, and therefore of being civilized. The loss of this “History”, these artifacts, brings up from our colonized idiosyncrasies the feeling of being less human. Tragic is how we still treat our Indigenous and Quilombist communities as less human, as not really having History, or not worthy of having their land and their homes preserved.

Haven’t we seen what happens when we leave History in the hands of European Institutions? They steal, then whitewash, distort or destroy. Egypt, for instance, has wanted its treasures back for years. They were colonized and Europe has profited from what they stole ever since. We as a society are still struggling to unlearn the teachings of an ethnocentric campaign that created the idea that Africa has no History. We learned that the evolution of humanity has been Northwards and Westwards, and we conveniently forgot that Egypt is black and African, not white and Northern Mediterranean like Greece.

Brazil also had its memory distorted, and we go along with it. Indigenous peoples were massacred and portrayed in Europe as savage animals. To this day European museums proudly display the works of white men who painted naked Indigenous women alongside made-up animals and plants. Here we internalize that rhetoric, we whiten ourselves, and reject all other ancestry.

If we’re gonna talk about the carelessness with which we deal with valuable artifacts, we must also talk about how we attach value to those artifacts, and the undeniable Ethno/euro-centrism involved in that process. As, if not more, important than rebuilding this institution is combating epistemic-genocide which has been annihilating our people and our History for hundreds of years.


Mirna Wabi-Sabi

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is co-editor of Gods&Radicals, and writes about decoloniality and anti-capitalism.


Gods&Radicals would like to know how we’re doing. Mind taking a four-minute survey?


TRADUÇÃO PORTUGUÊS

A tragédia do Museu Nacional começou muito antes do incêndio

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O país inteiro ficou perplexo ao ver o Museu Nacional literalmente em chamas, como se fosse nossa vez de ser destruídos pelos alienígenas do Independence Day. Quando acabou, oscilamos entre emoções de raiva e tristeza, lamentando a perda de objetos insubstituíveis e 200 anos de trabalho de muitas pessoas.

Fomos descuidados com nossa história material e irresponsáveis com a preservação de nossa memória desde sempre que este museu existe, por que estamos chateados agora? Nossa indignação parece vir da vergonha de ter falhado em alcançar um padrão europeu de possuir História.

Dez anos atrás, houve um incêndio criminoso que destruiu uma comunidade indígena não muito distante do Museu (em Camboinhas), e praticamente ninguém foi às ruas. Nós falamos sobre todos os registros de línguas indígenas que foram perdidos dentro deste edifício colonial, mas o que estamos fazendo para proteger os povos indígenas vivos aqui agora? Nós não os vemos como tendo história, nós os vemos como obstáculos para o desenvolvimento. Isso é o que realmente me faz oscilar entre emoções de raiva e tristeza, ano após ano.

Parte do fascínio que temos com o Museu não é necessariamente todos os objetos valiosos que estavam ali dentro, é sobre quem atribui valor à essas coisas. A atmosfera Real do espaço vem do fato de que é um dos poucos lugares com arquitetura de estilo europeu autêntico em nosso país. Uma das pessoas no vídeo de “Campanha para a requalificação do Museu Nacional” do ano passado disse que quando você sobe as escadas do museu pode-se facilmente imaginar um baile da família real, e é por isso que ela se apaixonou pelo local.

O Museu Nacional é a instituição científica mais antiga do Brasil. A Academia, juntamente com a Monarquia, e a Igreja Católica, foram instituições medievais introduzidas aqui centenas de anos atrás, e que hoje ainda sentimos a necessidade de preservar sem analisar adequadamente o papel genocida que elas tiveram em nossas vidas. Embora eu veja a tragédia do evento e sinta o horror da perda, acho importante abordar nossas visões subconscientemente eurocêntricas que nos levam a acreditar que a Europa e as instituições européias são detentoras da História.

O conceito de o que significa ser humano, desenvolvido na Europa Ocidental no século XVI, estava muito ligado à idéia de ter história e, portanto, de ser civilizado. A perda desta “História”, esses artefatos, traz de nossas idiossincrasias colonizadas a sensação de sermos menos humanos. Trágico é como ainda tratamos nossas comunidades indígenas e quilombolas como menos humanas, como não tendo realmente história, ou não dignas de ter suas terras e seus lares preservados.

Não vemos o que acontece quando deixamos a História nas mãos de instituições europeias? Roubam, depois embranquecem, distorcem ou destroem. O Egito, por exemplo, quer seus tesouros de volta há anos. Eles foram colonizados e a Europa lucrou com o que eles roubaram desde então. Nós, como sociedade, ainda estamos lutando para desaprender os ensinamentos de uma campanha etnocêntrica que criou a idéia de que a África não tem História. Aprendemos que a evolução da humanidade foi em direção ao norte e ao oeste, e convenientemente esquecemos de que o Egito é negro e africano, não branco e do norte do Mediterrâneo como a Grécia.

O Brasil também teve sua memória distorcida, e aceitamos. Os povos indígenas foram massacrados e retratados na Europa como animais selvagens. Até hoje, os museus europeus exibem com orgulho as obras de homens brancos que pintaram mulheres nativas nuas ao lado de animais e plantas inventados. Internalizamos essa retórica, nos embranquecemos, e rejeitamos nossas outras ancestralidades.

Se vamos falar sobre o descuido com qual lidamos com artefatos valiosos, devemos também falar sobre como atribuímos valor a esses artefatos, e o inegável Etno / eurocentrismo envolvido nesse processo. Tão importante quanto, se não mais do que, reconstruir esta instituição é combater o epistemicidio que tem aniquilado nosso povo e nossa história por centenas de anos.


Mirna Wabi-Sabi

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é militante anti-fascista/decolonial, e feminista interseccional. Edita o site de Gods and Radicals, é filósofa e professora.

The Common Ground Between Anarchists and Maoists

“Brazilian Anarchists and Maoists are both being criminalized for dissent that could undermine the government’s ability to function.”

From Mirna Wabi-Sabi

English Translation Here

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Credito: ExNEPe

O Terreno Comum Entre Anarquistas e Maoistas

A Copa do Mundo terminou, depois de termos politicado incessantemente os atletas e os países que essas equipes representavam. Havia algo suspeitamente conveniente em lembrar do colonialismo francês agora, mas esquecer da corrupção e da opressão da FIFA. Desta forma, podemos ficar colados na T.V. sem perder “pontos de militância”.

O movimento de resistência contra a FIFA em 2013 e 2014 não é coisa do passado. Os pretextos que transformaram movimentos sociais em organizações terroristas são, até hoje, responsáveis ​​pela criminalização do ativismo político no nosso pais. Isso resultou em 23 presos políticos com sentenças entre 5 e 13 anos, alguns ainda sendo processados ​​agora. Pessoas morreram e muitas mais perderam suas casas. Mas o que discutimos é como torcer para o México é uma mensagem anti-Trump, e como a equipe alemã está de alguma forma (simbolicamente) relacionada com a política sobre refugiados de Merkel.

Estamos testemunhando a fachada do estilo estadouniense de Democracia se desintegrando, revelando o fascismo de um Estado Imperializado que encarcera em massa e mata pessoas pobres, negras, trans e mulheres. Além disso, um Estado que usa uma corporação para distrair as massas com esportes nacionalistas, enquanto criminaliza dissidência política.

Anarquistas e Maoistas estão sendo igualmente criminalizados por dissidência capaz de prejudicar a capacidade do governo de funcionar. A OATL (Organização Anarquista Terra e Liberdade) e o MEPR (Movimento Estudantil Popular Revolucionário) foram recentemente colocados como frentes de iniciativas de atos violentos em 2013.

“Membros da OATL e MEPR planejavam lançar coquetéis molotovs e rojões contra a policia durante passeatas contra a copa do mundo” (Folha de Sāo Paulo, 17 de Julho 2018)

Mesmo com todas as nossas divergências ideológicas; particularmente em relação ao uso idolátrico de liderança, e o interesse na reconstrução de um Estado que sustentará a ditadura do proletariado; concordamos que o Estado em qual vivemos agora, e seu sistema eleitoral, deve ser derrubado. A re-centralização de poder econômico e estrutural num Governo comunista não é nem um pouco atraente pra nós anarquistas. E vemos que, apesar de eficiente em curto prazo, o culto de personalidade de líderes não é só contraditório aos nossos princípios de horizontalidade. É também insustentável, já que até agora revoluções morreram com seus lideres.

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Nosso terreno comum é a ideia de que a dicotomia entre esquerda e direita no campo eleitoral é reformista/reacionária, e não revolucionária, já que visa representação em, e consequentemente validação do, sistema partidário. Até os candidatos de mais extrema esquerda como Boulos, mesmo com sua retórica de defesa do povo pobre por políticas contra a especulação imobiliária e etc., visa a reconstrução da fé do povo Brasileiro no sistema. Isso só atrasa a revolução. Sabemos que o candidato não vai ganhar, se ganhar não vai fazer o que fala, e se tentar fazer o que fala vai ser impeached, preso, ou morto (como já vimos acontecer tantas vezes antes).

A estratégia de usar a plataforma partidária sustentada pela “Democracia” (Estilo estadounidense) pra divulgar ideias revolucionárias é como transar pela virgindade, validando no processo a própria coisa que estamos tentando invalidar. A necessidade imediata do povo que mais precisa dessa revolução não pode ser saciada com migalhas. É nossa responsabilidade como militantes não criar dependência do próprio Governo que visamos derrubar, e lutar para suprir essas necessidades imediatas como uma comunidade; um Movimento.

“Há apenas a preocupação de se jogar migalha na boca escancarada da fome, talvez para que nos deixem em paz…” – Maria Lacerda de Moura

Do dia 11 a 15 de Julho, estudantes de pedagogia de todo o Brasil se encontraram em União dos Palmares, Alagoas, para discutir métodos de combate aos ataques do Estado contra a educação e os direitos do povo dentro e fora da esfera acadêmica no nosso pais.

Este foi o 38o ENEPe (Encontro Nacional de Estudantes de Pedagogia), e sua 1a edição Marxista-Leninista-Maoista.

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A realização deste evento marcante na história da ENEPe não foi possível sem a superação de sérios obstáculos. Houve um rompimento entre estudantes de esquerda, resultando em dois eventos diferentes sendo realizados: este organizado pela ExNEPe (Executiva Nacional de Estudantes de Pedagogia) com presença predominante do MEPR, e outro evento com presença predominante do MEPe (Movimento Estudantil de Pedagogia) e movimentos estundatis ligados à UNE (União Nacional dos Estudantes).

Essa divergência ideológica entre os estudantes “de esquerda” é baseada no partidarismo. O MEPR reivindica a independência política, o boicote ao voto, e a completa rejeição da dependência financeira em, ou campanha de, partidos. Além disso, eles e elas também visam manter esse evento aberto a estudantes de outras áreas e a quem não é estudante.

Para muitos, o boicote ao voto significa uma brecha para a direita se fortalecer, ou até mesmo uma direita disfarçada. Os da MEPe, que não estavam a bordo com os posicionamentos da MEPR, não só fizeram seu próprio evento em outra data e local, mas também sabotaram a iniciativa de organização e promoção do evento de seus semelhantes. Cartazes promovendo a 38o ENEPe em União dos Palmares foram removidos ou danificados de alguma forma pelo país inteiro.

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Nos palcos do primeiro dia, 11 de Julho, houve uma fala de forte crítica Marxista ao PT, introduções das delegações de cada região, fala da LCP (Liga de Camponeses Pobres), apresentação de dança do Quilombo, poesia, teatro, e até rock. Os espaços entre cada foram preenchidos por palavras de ordem e punhos levantados. “Resistir, lutar, pra cultura popular”, entre muitas outras.

A grande maioria das aproximadamente 400 pessoas presentes, tiveram que superar múltiplos obstáculos financeiros e burocráticos, além da sabotagem de outros alunos, para comparecer no evento aquela semana. Portanto, a presença de cada um, de cada região, segurava o peso da dedicação à militância, e o entusiasmo de uma juventude com fé na revolução.

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Na mesa do 2o dia afirmaram que a independência do eleitoralismo é essencial na luta pela gratuidade educacional. A formação pedagógica ainda visa o treinamento de mão de obra barata, e Lula não foi melhor que FHC no combate a isso; cotas e bolsas só atrasam a revolução. Enquanto as reitorias agem como o Estado dentro da universidade, não ha como a universidade enfrentar o Estado. O papel do pedagogo e da pedagoga é fundamental pra formação da sociedade, e não deverá ser usado para servir um Estado.

A logística do evento foi discutida com todos e todas presentes. A comida, a limpeza, o transporte e a convivência em geral. Considerando que foi um evento realizado com completa autonomia financeira, sem apoio de partidos ou outras instituições, houve um processo de adaptação para os que não estavam acostumados.

Uma proposta essencial que foi aplicada durante o evento foi a criação de creches nas universidades. A creche representa a luta de inclusão da mulher na esfera política, acadêmica e profissional, com apoio da comunidade como um todo. Portando, a presença de crianças e bebês foi responsabilidade de todos e todas nós, e também simbólico para a estruturação de um movimento revolucionário onde esse papel não poderá ser só da mãe.

No último dia do encontro, o MFP (Movimento Feminino Popular) se apresentou como Marxista-Leninista-Maoista, abraçando a causa das mulheres que são alunas, professoras, operárias e camponesas, e afirmando que a mulher latifundiária é inimiga. O Movimento visa combater o trabalho doméstico não pago, a servitude de empregadas domesticas às suas empregadoras burguesas, e a ideia de que existe alguma diferença inata ente homens e mulheres.

A monogamia da família tradicional também deve ser combatida, pois nasceu com o conceito de propriedade privada para assegurar a transferência de bens por herança. Afirmaram também que não existe a cultura do estupro, existe o Patriarcado e o Capitalismo. Portanto, não se destrói a cultura do estupro com leis, se destrói o patriarcado capitalista com a revolução. O problema não é o homem, é o Estado. E acima de tudo, o propósito da organização é “despertar a fúria revolucionaria nas mulheres.”

Uma camarada da ExNEPe, Tarsila Pereira, foi proibida de comparecer a aulas como ouvinte na UFAL (Universidade Federal de Alagoas), por militar e promover este evento. A tentativa de abaixo assinado pra expulsar Tarsila acabou virando um abaixo assinado pra ela ficar, e o professor se recusou a expulsa-lá, falando que ele não é polícia, e na aula dele entra quem quer aprender. Felizmente, o processo que visava “restaurar a paz” nas salas de aula falhou, e hoje ela é uma aluna matriculada.

Sexta-feira, dia 13 de Julho, em Maceió, foi realizada uma manifestação em defesa de Tarsila na UFAL; contra o fascismo que infiltra a academia Brasileira; contra a intervenção militar e o oportunismo da Escola Sem Partido; contra a privatização das universidades e a regularização da profissão de pedagogos e pedagogas; e contra o imperialismo genocida no Oriente Médio.

Depois da manifestação, a organização do evento mostrou de forma impactante como a Cultura Popular é resistência. Uma apresentação de dança típica Alagoana abriu uma série de apresentações culturais de cada delegação presente. Ficou claro que “cada região é um País”, como falou uma das alunas assistindo. Foi emocionante presenciar como extrema diversidade pode sim significar uma completa união e solidariedade. Diversas danças, músicas, histórias, e linguagens foram apresentadas, destacando como a hegemonia violentamente invisibiliza expressões culturas belas e valiosas no Brasil.

Sábado, dia 14 de Julho, participantes foram divididos em três grupos, um deles destinado ao museu do Quilombo dos Palmares. A viajem no ônibus escolar amarelo foi uma celebração, ele ainda estava enfeitado da festa junina, e todos alternavam entre cantar techno brega e palavras de ordem. Na Serra da Barriga, região do Zumbi dos Palmares, chacoalhávamos na estrada de terra, subindo e descendo montanhas de mata baixa, com ocasionais coqueiros sendo saudados por urubus.

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Foi inevitável sentir o poder daquele espaço, mesmo que agora esteja estruturado um pouco como um parque temático. Cada passo parecia levantar uma memória centenária combativa, como se fosse uma poeira que ao invés de ofuscar, tornava ainda mais nítido nosso propósito politico. A vista do alto a serra chegava quase a nos colocar no corpo dos homens e mulheres que se estabeleceram lá 400 anos atras, e na consciência estratégica de poder ver inimigos de longe sem ser visto.

No fim da visita, muitos de nós até nadamos na pequena lagoa verde pastel onde quilombolas “alimentavam suas almas”.

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Quando voltamos pra universidade em União dos Palmares, assistimos apresentações de trabalhos, dos quais alguns seriam premiados. Um deles abordava a importância de educação sexual na escola, pra alunos entre 11 e 15 anos de idade. Interesses das crianças giravam em torno dos temas de masturbação, puberdade e menstruação. A apresentadora mostrou que sexo ainda é um tabu entre professores e reitorias, e a importância de derrubar esse tabu e abordar esse tema é de extrema urgência, quando se vê como é comum a gravidez de meninas de 13 a 15 anos e idade.

A importância da História foi enfatizada quando reconhecemos que o Brasil tem um problema de memória. Um trabalho sobre a Guerrilha do Araguaia trouxe pra mesa de debate a perpetuação da violência, décadas depois da batalha, quando crimes da resistência são judicialmente equiparados com os dos opressores. Trouxe também o tema das particularidades femininas na tortura durante a ditadura, e a questão do uso do termo “ditadura” em si, como um termo usado pela democracia burguesa pra defender suas políticas ditatoriais contemporâneas.

Em geral, houve muita repetição de termos como “pós-modernista”, “oportunista”, “imobilista” e Marxismo cientifico, sem finas definições e contextualizações. Isso alienou certos alunos que não se reivindicam Marxistas, e deu pouca abertura pra participantes apresentarem divergências. Até as votações finais foram bizarramente homogêneas, talvez não só porque houve consensus, mas também porque ir contra seria intimidador.

Para o burguês e pequeno burguês, a inacessibilidade é o charme. Com eles e elas não há diálogo, há combate. Combater a ideia de que ”uma mentira falada mil vezes vira verdade” (Goebbels) significa também reconhecer que existe diferentes perspectivas sobre a realidade, e não só uma verdade que pertence aos socialistas científicos. Ocasionais falhas em reconhecer isso resultou em certas infelizes falas, como uma sobre o misticismo de comunidades “primitivas”, e abordagens superficiais e desnecessárias do materialismo dialético.

Mesmo assim, foi afirmado que a ciência que vemos hoje na academia serve o Capital. O conhecimento científico do povo, seja ele indígena, negro ou camponês, é apropriado pelas classes dominantes e patenteado. Temos que trazer a ciência de volta para o povo, preservando a educação tradicional indígena, por exemplo. Para uma das palestrantes, o problema “do índio” é o problema de classe, e não da supremacia branca; É uma luta pela terra e pela sobrevivência. Seria interessante a presença de mais grupos Indígenas e Quilombolas nos próximos eventos, tanto que foi decidido que o tema do 23o FoNEPe (Fórum Nacional de Entidades de Pedagogia) será “educação que sirva o povo indígena, camponês e Quilombola”, ano que vem em Juazeiro.

No fim as despedidas foram calorosas, já que durante a semana cultivamos imenso carinho uns pelos outros. Havia espaço pra autocrítica e crescimento, e o potencial socio-politico do evento é inegável. Estamos todos e todas animadas pro próximo ENEPe (39o) que acontecerá em Guarulhos, com o tema de “defesa da escola pública, contra a privatização e fechamento de escolas públicas”.

“Se você paga,
não deveria,
educação
não é mercadoria”


Mirna Wabi-Sabi

editora do site Gods&Radicals, escritora e professora.

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English Translation
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Credit: ExNEPe

The Common Ground Between Anarchists and Maoists

The World Cup ended, after we incessantly politicized athletes and the countries those teams were representing. There was something suspiciously convenient about remembering French colonialism now, but forgetting FIFA’s corruption and oppression. This way we can stay glued to the T.V. without losing any “woke points”.

Brazil’s uprising against FIFA in 2013 and 2014 is not a thing of the past. The pretexts that turned social movements into terrorist organizations are to this day responsible for the criminalization of political activism. This resulted in 23 political prisoners with sentences between 5 and 13 years, some still being prosecuted now. People have died, and many more lost their homes. But what we talk about is how cheering for Mexico is an anti-Trump statement, and that the German team is somehow related (symbolically) to Merkel’s refugee policy.

We are witnessing the facade of U.S. American style Democracy crumbing down, revealing the Fascism of an Imperialized State that mass incarcerates and kills poor people of color, trans people, and women. Moreover, a State that uses a corporation to  distract the masses with nationalistic sports, while it criminalizes political dissent.

Brazilian Anarchists and Maoists are both being criminalized for dissent that could undermine the government’s ability to function. The OATL (Anarchist Organization of Land and Liberty) and the MEPR (Popular Revolutionary Student Movement) have recently been denominated initiators of violent protest acts in 2013.

“OATL and MEPR members planned to launch Molotov cocktails and other flaming objects at the police during marches against the world cup” – (Folha de São Paulo, July 17th 2018)

Even with all our ideological differences; particularly in relation to the idolatrous use of leadership, and the interest in rebuilding a state that will sustain the dictatorship of the proletariat; we agree that the state we live in now, and its electoral system, must be overthrown. The re-centralization of economic and structural power in a communist government is not at all attractive to us anarchists. And we see that, although efficient in the short run, the personality cult of leaders is not only contradictory to our principles of horizontality. It is also unsustainable, since up to now revolutions have died with their leaders.

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“Elections are a farce – don’t vote – long live the rural and anti imperialist democratic revolution! MEPR.”

Our common ground is the idea that the dichotomy between left and right in the electoral field is reformist / reactionary rather than revolutionary, since it seeks representation in, and consequently validation of, the system. Even the most far-left candidates like Guilherme Boulos (PSOL), with his rhetoric of defending the poor with policies against real estate speculation and so on, aim at rebuilding the faith of the Brazilian people in the system. This only slows down the revolution. We know that the candidate will not win, if he wins he will not do what he says, and if he tries to do what he says he will be impeached, imprisoned, or killed (as we have seen so many times before).

The strategy of using the partisan platform supported by the U.S. American Style Democracy to spread revolutionary ideas is like fucking for virginity, validating in the process the very thing we are trying to invalidate. The immediate needs of the people who most need this revolution can not be satiated with crumbs. It is our responsibility as militants to not create dependence on the very Government we aim to overthrow, and strive to meet these immediate needs as a community; a Movement.

“There is only the concern of throwing crumbs at the gaping mouth of hunger, perhaps so that they leave us alone …” (Maria Lacerda de Moura)

From 11 to 15 July, pedagogy students from all over Brazil met at União dos Palmares, Alagoas, to discuss methods of combating State attacks against education, and the rights of the people inside and outside the academic sphere in our country.

This was the 38th ENEPe (National Meeting of Students of Pedagogy), and its 1st Marxist-Leninist-Maoist edition.

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The realization of this groundbreaking event in the history of ENEPe was not possible without overcoming serious obstacles. There was a rupture between leftist students, resulting in two different events being held: this one organized by ExNEPe (National Executive of Students of Pedagogy) with predominant presence of the MEPR, and another event with predominant presence of MEPe (Student Movement of Pedagogy) and student movements linked to UNE (National Union of Students).

This ideological divergence among “leftist” students is based on partisanship. The MEPR claims political independence, a vote boycott, and a complete rejection of financial dependence on, or campaigning for, political parties. In addition, they also aim to keep this event open to students from other academic fields and to non-students.

For many, the boycott of the vote means a breach for the right to strengthen, or even a right in disguise (like blaming 3rd party voters for Trump). Those of the MEPe, who were not on board with MEPR rhetoric, not only made their own event at another date and place, but also sabotaged the initiative and promotion of their peers’ event. Posters promoting the 38th ENEPe in União dos Palmares were removed or damaged in some way throughout the country.

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The vast majority of the approximately 400 people present had to overcome multiple financial and bureaucratic obstacles, as well as the sabotage of other students, to attend the event that week. Therefore, the presence of each one, from each region, held the weight of dedication to militancy, and the enthusiasm of a youth with faith in the revolution.

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Delegations from each region, sleeping quarters.

On the last day of the meeting, the MFP (Popular Women’s Movement) presented itself as a Marxist-Leninist-Maoist, embracing the cause of women who are students, teachers, workers and peasants, and stating that the landowning (bourgois) woman is an enemy. The Movement aims to combat unpaid domestic work, the servitude of maids to their bourgeois employers, and the idea that there is some innate difference between men and women.

We must also overcome the monogamy of traditional families, because it was born with the concept of private property to ensure the transfer of assets by inheritance. They also affirmed that there is no rape culture, there is the Patriarchy and Capitalism. Therefore, one does not destroy rape culture with laws, one destroys capitalist patriarchy with a revolution. The problem is not the man, it is the State. And above all, the purpose of the organization is “to awaken revolutionary fury in women.”

The event showed beautifully how Popular Culture is resistance. A typical Alagoan dance performance opened a series of cultural presentations of each delegation present. It became clear that “each Brazilian region is a Country”, as one of the students observed. It was exciting to witness how extreme diversity can mean full union and solidarity. Several dances, songs, stories, and languages were presented, highlighting how the hegemony violently invisibilizes valuable cultural expressions in Brazil (we are much more than just Rio and São Paulo).

On Saturday, July 14th, participants were divided into three groups, one of them destined to the historical site of Quilombo dos Palmares. This is the most famous settlement of runaway enslaved Africans in resistance to Portuguese and Dutch occupation. The trip in the yellow school bus was a celebration, everyone alternated between singing tacky songs and chanting political slogans. In Serra da Barriga, in the region of Zumbi dos Palmares (the a most famous abolitionist leader of the Quilombo), we rattled on the dirt road, up and down mountains of low vegetation, with occasional coconut trees being greeted by vultures.

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It was inevitable to feel the power of that land, even though it is now structured somewhat like a theme park. Each step seemed to lift a centuries-old combative memory, as if it were dust that instead of obfuscating, made our political purpose even clearer. The sight from above the mountain almost placed us in the bodies of the men and women who settled there 400 years ago, and in the strategic awareness of being able to see enemies from afar without being seen.

At the end of the visit, many of us swam in the small pastel green lagoon where Quilombolas “fed their souls”.

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When we returned to the university in União dos Palmares, we attended presentations of works, some of which would later be awarded. One of them addressed the importance of sex education in schools for students between 11 and 15 years of age. The interests of the children revolved around the themes of masturbation, puberty and menstruation. The presenter showed that sex is still a taboo between teachers and principals. When we see how common it is for 13 to 15 year old girls to become pregnant, the importance of overcoming this taboo and addressing this issue is revealed as undeniably urgent.

The importance of history was emphasized when we recognized that Brazil has a memory problem. A presentation on the Araguaia Guerrilla discussed the perpetuation of violence, decades after the battle, when the crimes of the resistance are judicially equated with those of the oppressors. She also brought up the subject of female particularities when it comes to the practice of torture during the Brazilian “dictatorship” (Military regime of 1964-1985), and the question of using the term “dictatorship” as it is used by the bourgeois democracy to defend its contemporary dictatorial policies.

In general, there was a lot of repetition of terms such as “postmodernist,” “opportunistic,” “immobilist,” and scientific Marxism, without refined definitions and contextualizations. This alienated certain students who did not identify as Marxist, and gave little opening for participants to disagree. Even the final votes were bizarrely homogeneous, perhaps not only because there was consensus, but also because going against the group would be intimidating.

For the bourgeoisie and petit bourgeoisie, inaccessibility is the charm. With them there is no dialogue, there is combat. Fighting the idea that “a lie told once remains a lie but a lie told a thousand times becomes the truth” (Goebbels) also means recognizing that there are different perspectives on reality, and not just a truth that belongs to scientific socialists. Occasional failures to recognize this have resulted in certain unfortunate affirmations, such as one on the mysticism of “primitive” communities, and superficial and unnecessary approaches towards dialectical materialism.

Even so, it was stated that the science we see today in the academy serves the Capital. Scientific knowledge of the people, be it indigenous, black or peasant, is appropriated by the ruling class and patented. We have to bring science back to the people, by preserving traditional indigenous education, for example. To one of the speakers, the “Indigenous problem” is a class problem, not a white supremacy problem; It is a struggle for land and survival. It would be interesting to have more Indigenous and Quilombola groups in the coming events, so much so that it was decided that the theme of the 23rd FoNEPe (National Forum of Pedagogical Entities) will be “education that serves indigenous, peasant and Quilombola communities”, next year in Juazeiro, Bahia.

At the end, the farewells were warm, since during the week we cultivated great affection for each other. There was room for self-criticism and growth, and the socio-political potential of the event is undeniable. We are all excited about the next ENEPe (39th) that will take place in Guarulhos, São Paulo, with the theme “defending the public school against privatization.”


Mirna Wabi-Sabi

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is co-editor of Gods&Radicals, and writes about decoloniality and anti-capitalism.


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Bargaining Even With the Spiritual

“Rules to be followed in order to achieve something desired, exchange favors, the human mind is so materialistic that it bargains even with the spiritual.”

From Jal Souza

English Translation Here

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Barganhando Até Com o Espiritual

Regras a serem seguidas com o intuito de alcançar algo desejado, troca de favores, a mente humana é tão materialista que barganha até com o espiritual.

Não se trata de um texto didático, baseado em livros de pessoas celebres ou de status reconhecido, mas sim um relato de uma simples alma, que aprendeu na pratica, sendo liberto do crime, das drogas e da ignorância política, através da fé, vendo a força dos ancestrais, filhos da grande mãe África, dos impérios de Oyo Yorubá, Kongo, Aksum, a quem somos herdeiros e guardiões legítimos de sua sabedoria, livrar o povo preto da morte, em todas as formas que ela se apresenta aos jovens de periferia, e escutando os ensinamentos de uma ialorixá, não uma com iniciados famosos ou com terreiro gigante em algum bairro nobre, citada em veículos de comunicação, mas uma de baixa escolaridade e muita sabedoria conquistada nos seus 27 anos de feita, iniciada na religião, que perdeu muitos filhos, vê os iaôs como nascidos dela, para a política assassina racista do estado brasileiro, mas salvou muitos, esse texto é uma prova.

É triste ver como as pessoas, até mesmo praticantes da fé africana, não entendem a força dos nossos antepassados, não conhecem a essência dessa crença tão rica de sentimentos, onde não é preciso ser o mais letrado ou endinheirado, vivemos do resplendor dos impérios da terra natal ao cativeiro do solo americano, e nem isso nos apagou da sociedade e do crescimento. Fé significa verdade, se encher um copo na torneira, colocar em uma prateleira e crêr que ali está uma energia sagrada, o que chamam água, chamamos Oxum, se tomar um banho na praia e acreditar que ali foram tiradas todas negatividades, o que chamam de água salgada, chamamos Iemanjá, ao dar de comer a um semelhante faminto, ali está a terra que nos da o alimento, chamamos Omolu, Obaluaiê, o que chamam natureza, chamamos Orixás, seres de luz, guias, aqueles que não mudam o planeta, mas mudam a nós, para agirmos pelo mundo. Não se trata de oferecer e receber, a experiência de colocar um simples prato de milho branco na pratileira, após usar cocaína, e nunca mais usar novamente, dá essa certeza, e até mesmo não adepto do candomblé, mas que fez o bem a si mesmo e ao próximo, está rodiado das energias positivas, pois, o vento não se vende por bens materiais, Iansã não precisa, e sopra o agô, misericórdia, também aos que erram, pois nos erros que aprendemos, mas pesa o martelo da justiça aos maldosos convictos.

O mal existe? Sim! A personalidade do ser humano faz parte da natureza, temos positivo e negativo, não chamamos os deuses dos outros de demônios, ou quem não segue a crença de perverso, cada um tem seu papel e aprendizado nesse universo, que chamamos Oxalá, Obatolá, e só o Grande Criador sabe o que cada um passou, e passa, em sua caminhada, o diabo é nossa própria escuridão. Cultuamos seres malignos? Opcional de cada um. Se alguém lança uma praga contra outro, seja acendendo uma vela, em oração, e até mesmo pura palavras, o maligno se apodera, para prejudicar a todos, mas, a natureza é justa, não mau, assim como um animal predador só caça a quantidade de presas de que precisa para sobreviver. Dificuldades todos passaremos, conheceremos o melhor e o pior de existir, faz parte do aprendizado, mas o senhor da guerra, o sangue dentro de nós, Ogum, tem as chaves das portas da prosperidade para quem merecer, lutar por si e por seus semelhantes. As entidades não farão milagres do acaso, mas, como o ar que é vital a vida, te dará a energia para vencer na luta, as ruins não vão segurar seus braços, pernas, não há melhor ferramenta que a própria preguiça, desatenção.

Não é preciso ser adepto do candomblé, umbanda, quimbanda, para ser agraciado pelos grandes reis e rainhas do oculto, do não palpável, cada tempo que vivemos é um novo conhecimento, senhor Tempo ensina, basta abrir a mente para o que é mostrado, se apropriar do que faz bem, distribuir amor, com justiça. O espiritual não é capitalista, não está a venda, só entende quem conhece a gratidão e paz interior.


Jal Souza

Screen Shot 2018-07-09 at 17.41.25Um brasileiro de 30 anos, nascido e criado nas periferias da capital do estado da Bahia, candomblecista e esquerdista, me descobrindo tarde, após vencer preconceitos e senso comum aprendidos desde infância.


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English Translation

Bargaining Even With the Spiritual

Rules to be followed in order to achieve something desired, exchange favors, the human mind is so materialistic that it bargains even with the spiritual.

This is not a didactic text, based on books of selected people or of recognized status, but rather an account of a simple soul, which he has learned in practice, being freed from crime, drugs and political ignorance, through faith, seeing the strength of the ancestors, sons of the great mother Africa, of the empires of Oyo Yoruba, Kongo, Aksum, to whom we are heirs and legitimate guardians of his wisdom, to rid black people of death, in all the forms that it presents itself to the peripheral youth, and listening to the teachings of an ialorixá, not one with famous initiates or with a giant terreiro in some noble neighborhood, mentioned in vehicles of communication, but one of low education and much wisdom conquered in his 27 years, initiated in the religion, who lost many children, sees the iaôs as born from her, to the murderous racist politics of the Brazilian state, but saved many, this text is proof.

It is sad to see how people, even practitioners of the African faith, do not understand the strength of our ancestors, do not know the essence of this belief so rich in feelings, where one does not have to be the most literate or wealthy, we live from the brightness of the empires of the homeland to the captivity of American soil, and not even that erased us from society and from growth. Faith means truth,

if you fill a glass on the tap, put it on a shelf and believe that there is a sacred energy, what is called water, we call Oxum,

if you swim at the beach and believe that all negativities were taken, what they call salt water, we call Iemanjá,

when giving something to eat to a famished fellow, there is the land that gives us the food, we call Omolu, Obaluayê,

what they call nature, we call Orixás, beings of light, guides, those who do not change the planet, but they change us, to act for the world.

It is not a matter of offering and receiving, the experience of putting a simple plate of white corn on the shelf, after using cocaine, and never again using it, gives that certainty, and even those not adept at Candomblé, but those who did good to themselves and the neighbor, is surrunded by positive energies, because the wind is not sold for material goods, Iansã does not need it, and blows the agô, mercy, also to those who err, for in mistakes we have learned, but the hammer of justice weighs on the vicious convicts.

Or does evil exist? Yes! The personality of the human being is part of nature, we have positive and negative, we do not call the Gods of others demons, or who does not follow the belief of perverse, each has his or her role and learning in this universe, which we call Oxalá, Obatolá, and only the Great Creator knows what each has passed through, and passes, in his walk, the devil is our own darkness. Do we worship evil beings? It depends on each one. If one hurls a plague against another, whether by lighting a candle, in prayer, or even in pure words, the evil one seizes itself, to harm everyone, but nature is just, not evil, just as a predatory animal only hunts the amount of prey it needs to survive.

Difficulties we will all endure, we will know the best and the worst to exist, it is part of learning, but the warlord, the blood inside us, Ogun, has the keys of the doors of prosperity for whom deserves, to fight for him or herself and for his or her fellows. Entities will not perform miracles of chance, but, like the air that is vital to life, they will give you the energy to win in the fight, the bad ones will not hold your arms and legs, there is no better tool for that than your own laziness and inattention.

It is not necessary to be adept at Candomblé, Umbanda, Quimbanda, to be graced by the great kings and queens of the occult, the unpalpable, each time we live there is a new knowledge, Lord Time teaches, just open the mind to what is shown, to appropriate what is good, to distribute love, justly. The spiritual is not capitalist, it is not for sale, understood only by who knows gratitude and inner peace.


Jal Souza

Screen Shot 2018-07-09 at 17.41.25A 30-year-old Brazilian, born and raised in the outskirts of the capital of the state of Bahia, Candomblé and leftist, discovering himself late, after overcoming prejudices and common sense learned since childhood.


The Leadership and Legacy of Indigenous Women

April was Indigenous Month in Brazil. This article reports on the Leadership of Indigenous Women conference in Salvador, and explores the personal and communal journey of indigenous women through generations.

From Mirna Wabi-Sabi

Texto em Português (BR) aqui.

You can hear this article read by the author here. (For those with dyslexia, visual impairments, or multitasking needs.)

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Photo By Julia Lea de Toledo. Photo of the Krahô, in Tocantins.

The Leadership of Indigenous Women

Indigenous peoples are often seen as “protectors of the forest” when they lift up a mirror to Western Civilization, revealing how capitalism and industrialization lead to climate change. But if we look beyond ourselves, we can see that their livelihoods have been at stake much before it became clear to us that ours is as well. Rapacious hunting and fishing is making the land scarce, which is unsustainable for us, and devastating for them. This devastation has lead Indigenous women to fight to reclaim land, not just the right to use whatever is left of the land’s resources after governments privatize and industries extract. And they fight at any cost.

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Nádia Akauá Tupinanbá, Flávia Guarani Kaiowá, Rosimere Arapasso. (Federal University of Bahia)

It’s clear now as much as ever, after the coup, Lula’s imprisonment, attempts to privatize Latin America’s largest electricity company (and consequently Brazil’s largest river), that the Government is not an ally. “Politicians don’t represent us” (Nádia). They (and the military) are not to be believed, because it’s clear that “what they say they will do to help doesn’t happen, they’re only after votes”. Many politicians only show up to collect information, and even family members sometimes turn people in (intentionally or unintentionally).
The fight for territory doesn’t need the government. The auto-demarcation of land shows the political strength of the movement, and most importantly the spiritual strength of the people.

“If you don’t feel capable of speaking about yourself, how can you speak for the other? If we don’t speak, we won’t be heard. The abuse of the woman needs to be spoken by the woman! Otherwise there won’t be any change. That’s why we assume the responsibility of militancy, without weekends or holidays.” (Rosimere)

Husbands also can’t represent their wives, they must represent themselves because if they don’t speak up, they are not heard. There is power in denunciation; without it, there are no rights. On the other hand, with denunciation comes persecution. Coming out of invisibility means a whole new set of threats. “Whites want to keep getting richer, so they kill us.” (anonymous) Which is why massacres happen with impunity. If the cops or the military don’t remove tribes from privatized land, landlords will “by the bullet”. And if they don’t kill, they burn their homes and all their things.

“To lead requires courage because we are hunted down like animals.” (Flávia)

The Guarani-Kaiowá territory in Mato Grosso do Sul is home to a tribes that have recently endured egregious acts of violence. Flávia, a 21 year old Indigenous leader, has witnessed a type of police brutality unimaginable to most people. The militarized police force invaded her community, where she lives with her 6 year old son, shooting, leaving many injured and one dead (2016 Caarapó). She says with tears in her eyes that her son is no longer afraid of guns, and that for generations natives grow up in fear without knowing that what they endure is oppression.

“I had to overcome the fear of death, and now I’m prepared to die because I know I’ll die doing something worthwhile.” (Rosimere)

The trans-generational trauma, together with the violence that is still happening today, leads to complex existential obstacles. Among Native youth in particular, demoralization leads to high suicide rates. Some Government programs arrange for psychologists to go to the communities, but according to Nádia Akauá they are not the solution. They will not help people because they have no spirituality, and to Natives prayer is the strongest weapon against demoralization. Many of them go because it’s easy money and they have a curiosity for the “exotic”. These psychologists come from academia, not speaking their language literally, culturally or spiritually.

“The community should decide who comes in and who doesn’t, not some government issued program.” (Nádia)

Hope comes through prayer, which is why spirituality is a driving force of the Indigenous resistance movement. To be able to call yourself Indigenous and practice rituals is in itself a victory. It’s important to preserve and vocalize Indigenous identity, especially after being harshly prevented from doing so in the past. “If we said we were Native, we died” (The Female Cacique/Chief of the Abaeté tribe). During the dictatorship in the 60’s, there were concentration camps for natives. Today, calling oneself Indigenous can still be death sentence. So, in many ways this fight is simply for the right to exist.

The Legacy of Indigenous Women

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Photo By Julia Lea de Toledo. Photo of the Krahô, in Tocantins.

When Brazil was invaded (not “discovered”), there were virtually no European women, so the vast majority of the Brazilian population has come to be from the violent miscegenation between white men and women of color. The fact that our ancestors were violated is something that affects us today, and is a trauma that is passed down to us. There is no recorded history of these Indigenous women; for hundreds of years they have had no voice. All we hear and reproduce is the memory of the white European men who violated them. So we had no chance to heal.

Not allowing indigenous people to speak for themselves has been a successful and despicable way to instill in society the white supremacist ideology we are still struggling with today. For instance, only last year the Rijksmuseum in Amsterdam hosted and exhibition of works by a Dutch colonial artist called Frans Post. He continued to paint Brazilian landscapes well after his visit to Brazil (in the mid 1600’s) because they “sold very well“- while “not a single animal or plant study from his hand [is] known”. In other words, he was painting fantasy, and he isn’t the only Dutch artist in museums today who did that.

“[Albert] Eckhout’s depictions were presented, at the time, as “curiosities”, but would end up influencing not to a small degree, the ethnological gaze and anthropological perspectives toward Brazil’s indigenous peoples up to the present day.” (Adone Agnolin)

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To the left is an indigenous woman with chopped body parts and dangerous wild animals, intending to represent the savagery of indigenous peoples in Dutch occupied Brazil. This is not how Natives practiced anthropophagy. To the right we have a “domesticated” mestizo man with European-style clothes and firearm. The twisted white European gaze, while still widely considered objective, has for hundreds of years misrepresented the culture and traditions of native peoples, while violently silencing the people they supposedly represent.

These are examples of capitalism sprouting from patriarchal colonialism, and forming the symbiosis of white supremacy, sexism, and the “free” market that we live in today.

The way to keep the legacy of Native ancestors alive is to rescue the memory of the mothers, grandmothers, great-grandmothers, and great-great-grandmothers. Listening, learning, practicing, and sharing keep the identity alive. Indigenous identity is preserved through practice and tradition, not through DNA. Government authorities, however, often use DNA as a tactic to discredit Indigenous leaders, undermine their movements, turn Native people against each other, and bend the law in their favor.

Flávia Guarani Kaiowá, for instance, has had her mixed black ancestry used as a threat against her by several authority figures. That doesn’t even come close to interfering with her commitment to the movement of Indigenous resistance, and to her upbringing, ancestors and traditions. If anything were to happen to her, the whole world will speak her name and her voice will not be silenced like those of the women who came before her.

“My grandmother used to tell me: ‘This land is not ours, we were forced to choose between coming here and dying.’” (Flávia)

Indigenous women were taken by force from their land and moved into camps. Or they were put to work as maids in the homes of military officers and Christian leaders until they were 30 or so. When they aged and were no longer considered valuable as cheap labor, they were left without homes or jobs, and faced discrimination even in their own tribes when they went back. When Brazilians marginalize these Indigenous women, it also means marginalizing a significant part of themselves.

Brazilian families tend to not value their Indigenous ancestry, there is so much colorism that it makes it hard to look for our roots and to preserve our identity. I, personally, decided to rescue the memory of my ancestor by ritualizing my life. This doesn’t mean I’m going to move in with a tribe and start painting myself. It means I practice daily rituals that connect me with my ancestor, by listening, learning and healing in ways that are just not possible through Western medicine and therapies. We can all benefit from destroying a little bit of the white supremacy in the world by decolonizing ourselves.


Mirna Wabi-Sabi

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is co-editor of Gods&Radicals, and writes about decoloniality and anti-capitalism.


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TRADUÇÃO PORTUGUÊS

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Krahô, Tocantins (Foto de Julia Lea de Toledo)

Abril foi o Mês Indígena. Este artigo relata a conferência Liderança de Mulheres Indígenas em Salvador, e explora a jornada pessoal e comunitária das mulheres indígenas pelas gerações.

Por Mirna Wabi-Sabi

A Liderança de Mulheres Indígenas

Os povos indígenas são frequentemente vistos como “protetores da floresta” quando levantam um espelho para a civilização ocidental, revelando como o capitalismo e a industrialização resultou em aquecimento global. Mas se olharmos além de nós mesmos, veremos que a sobrevivência e bem estar deste povo já estava seriamente ameaçada muito antes de ficar claro para nós que a nossa existência também está. A caça e a pesca predatória tornam a terra escassa, o que é insustentável para nós e devastador para eles e elas. Essa devastação ambiental e cultural levou as mulheres indígenas a lutar para recuperar a terra, não apenas o direito de usar o que resta dos recursos da terra depois que o governo privatiza e indústrias extraem. E elas lutam a qualquer custo.

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Citações de Nádia Akauá Tupinanbá, Flávia Guarani Kaiowá, Rosimere Arapasso. (UFBA)

Está claro, como sempre esteve, após o golpe, a prisão de Lula, tentativas de privatizar a maior companhia de eletricidade da América Latina (e consequentemente o Rio Sāo Francisco), que o governo não é um aliado. “Políticos não nos representam” (Nádia). Não podemos acreditar no governo e no exército, porque é claro que “o que eles dizem que vão fazer para ajudar não acontece, estão apenas atraz de votos”. Muitos políticos só aparecem para coletar informações, e até mesmo membros da família às vezes entregam nativos (intencionalmente ou não).

A luta pelo território não precisa do governo. A auto-demarcação da terra mostra a força política do movimento e a força espiritual do povo.

“Se você não se sente capaz de falar sobre si mesmo, como pode falar pelo outro? Se não falarmos, não seremos ouvidas. O abuso da mulher precisa ser falado pela mulher! Caso contrário, não haverá nenhuma mudança. É por isso que assumimos a responsabilidade da militância, sem fins de semana ou feriados.” (Rosimere)

Maridos também não podem representar suas esposas, elas devem representar a si mesmas, porque se não falam, não são ouvidas. Existe poder na denúncia; sem isso, não há direitos. Por outro lado, com a denúncia vem a perseguição. Sair da invisibilidade significa todo um novo conjunto de ameaças. “Os brancos querem continuar enriquecendo, então nos matam.” (anônimo) É por isso que massacres acontecem com impunidade. Se os policiais ou militares não “removem” aldeias de terras, os proprietários se sentem no direito de “remover a bala”. E se não matam, queimam as casas e as coisas.

“Liderar requer coragem porque somos caçadas como animais.” (Flávia)

O território Guarani-Kaiowá, no Mato Grosso do Sul, abriga aldeias que recentemente sofreram horríveis atos de violência. Flávia, uma líder indígena de 21 anos, testemunhou extrema brutalidade policial. A polícia invadiu sua comunidade, onde mora com seu filho de 6 anos, atirando, deixando muitos feridos e um morto (Caarapó 2016). Ela diz com lágrimas nos olhos que seu filho não tem mais medo de armas, e que por gerações Nativos crescem com medo sem saber que o sofrem é opressão.

“Eu tive que superar o medo da morte, e agora estou preparada para morrer, porque sei que vou morrer fazendo algo que vale a pena.” (Rosimere)

O trauma transgeracional, junto com a violência contemporânea, resulta em complexos obstáculos existenciais. Entre os jovens nativos, em particular, a desmoralização leva a altas taxas de suicídio. Alguns programas do governo mandam psicólogos às comunidades, mas, segundo Nádia Akauá, isso não é a solução. Eles não ajudam os Nativos e as Nativas porque não têm espiritualidade, e para eles e elas a oração é a arma mais forte contra a desmoralização. Muitos participam do programa porque é dinheiro fácil e brancos têm uma curiosidade pelo “exótico”. Esses psicólogos vêm da academia, não falando a língua da comunidade literalmente, culturalmente ou espiritualmente.

“A comunidade tem que decidir quem entra e quem não entra, não um programa qualquer do governo.” (Nádia)

A esperança vem através da oração, e é por isso que a espiritualidade é uma força motriz do movimento de resistência indígena. Ser capaz de se chamar indígena e praticar rituais é em si uma vitória. É importante preservar e vocalizar a identidade indígena, especialmente depois de ser duramente impedidos de fazê-lo no passado. “Se a gente falasse que era indígena, morria” (A Cacique Abaeté). Durante a ditadura nos anos 60, havia campos de concentração para nativos. Hoje, se afirmar como indígena ainda pode ser uma sentença de morte. Então, em muitos aspectos, essa luta é simplesmente pelo direito de existir.

O Legado das Mulheres Indígenas

Quando o Brasil foi invadido (não “descoberto”), praticamente não havia mulheres européias, então a grande maioria da população brasileira veio a ser da miscigenação violenta entre homens brancos e mulheres de cor. O fato de nossas ancestrais terem sido violentadas é algo que nos afeta hoje em dia, e é um trauma transmitido a nós. Há pouquíssima históra registrada dessas mulheres indígenas; por centenas de anos elas não tiveram voz. Tudo o que ouvimos e reproduzimos é a memória dos homens europeus brancos que as violaram. Então não tivemos chance de sarar.

Não permitir os povos indígenas de falar por si mesmos tem sido uma maneira bem-sucedida e desprezível de incutir na sociedade a ideologia da supremacia branca, contra qual ainda estamos lutando hoje. Por exemplo, apenas no ano passado, o Rijksmuseum de Amsterdã exibiu obras de um artista colonial holandês chamado Frans Post. Ele continuou a pintar paisagens brasileiras bem depois de sua visita ao Brasil (em meados do século 17), porque “vendiam muito bem” – enquanto “nem um único estudo de animal ou planta de sua mão é conhecido”. Em outras palavras, ele estava pintando fantasias, e ele não é o único artista holandês em museus de hoje que fez isso.

“As pinturas de [Albert] Eckhout foram apresentadas, na época, como “curiosidades”, mas acabariam influenciando, não a um pequeno grau, o olhar etnológico e as perspectivas antropológicas em relação aos povos indígenas do Brasil até os dias atuais.” (Adone Agnolin)

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À esquerda está uma indígena com partes de um corpo picado e animais selvagens perigosos, que pretende representar a selvageria dos povos indígenas na região Braseila ocupada pelos holandeses. Não é assim que os nativos praticavam a antropofagia. À direita, temos um homem mestiço “domesticado” com roupas de estilo europeu e arma de fogo. O olhar branco Europeu distorcido, apesar de ainda ser amplamente considerado objetivo, por centenas de anos deturpou a cultura e as tradições dos povos Indígenas, violentamente silenciando as pessoas que supostamente representava.

Estes são exemplos do capitalismo brotando do colonialismo patriarcal, e formando a simbiose entre a supremacia branca, o sexismo, e o mercado “livre” em que vivemos hoje.

Uma maneira de manter vivo o legado de ancestrais Nativos é resgatar a memória das mães, avós, bisavós e trisavós. Ouvir, aprender, praticar e compartilhar mantém a identidade viva. A identidade indígena é preservada através da prática e da tradição, não só através do DNA. As autoridades governamentais, no entanto, muitas vezes usam o DNA como uma tática para desacreditar líderes indígenas, minar seus movimentos, transformar os povos indígenas uns contra os outros, e reverter a lei a seu favor.

Flávia Guarani Kaiowá, por exemplo, teve sua descendência negra usada como uma ameaça contra ela por várias figuras de autoridade. Isso nem chega perto de interferir em seu compromisso com o movimento da resistência indígena, e com sua relação com sua criação, ancestrais e tradições. Se alguma coisa lhe acontecer, o mundo inteiro falará seu nome e sua voz não será silenciada como as das mulheres que vieram antes dela.

“Minha avó me disse: ‘Essa terra não é nossa, fomos forçadas a escolher entre vir aqui e morrer.'” (Flávia)

Mulheres indígenas foram retiradas à força de suas terras e transferidas para os campos. Ou foram colocadas para trabalhar como empregadas domésticas nas casas de oficiais militares e líderes cristãos até por volta dos 30 anos de idade. Quando envelheciam, e não eram mais consideradas valiosas como mão-de-obra barata, ficavam sem moradia ou emprego e enfrentavam discriminação até mesmo quando voltavam pra suas próprias aldeias. Quando brasileiros marginalizam mulheres indígenas, isso também significa marginalizar uma parte significante de nós mesmos.

As famílias brasileiras tendem a não valorizar sua ancestralidade indígena, há tanto colorismo que dificulta a busca à nossas raízes e a preservação de nossa identidade. Eu, pessoalmente, decidi resgatar a memória da minha ancestral pela investigação histórica e pela ritualização minha vida. Isso não significa que eu vou me mudar pra uma aldeia e começar a me pintar. Significa que pratico rituais diários que me conectam com minha ancestral, ouvindo, aprendendo e me curando de maneiras que não são possíveis através da medicina e das terapias ocidentais. Todos e todas nós nos beneficiaremos da descolinização e da destruição da supremacia branca no mundo.


Mirna Wabi-Sabi

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é editora de Gods&Radicals, e escreve sobre anti-colonialismo e anti-capitalismo.


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A Tribute to Winnie Mandela

Winnie Mandela passed away April 2nd, 2018. Here is a note, and tribute, by the Pan-Africanist school in Brazil that was named after her.

English Translation Here

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NOTA DA REAJA

À GRANDE RAINHA AFRICANA WINNIE MANDELA, NOSSO FAROL.

 “Para alimentar a luta, tinha de me expor à violência e à brutalidade do apartheid.”
Winnie Mandela

Winnie Madikizela-Mandela representou e representará para nós da Reaja, um farol, uma importante referência a qual nos mostra caminhos para uma prática de defesa dos interesses do nossos povo em meio a um tempo de miragens tecnológicas e traições políticas do propósito da luta negra no Brasil.

Winnie Mandela, o imponente nome que daos ao nosso quilombo de libertação forjado por pretos e pretas conscientes de sua história político racial se materializa pela nossa coragem de erigir um território livre de qualquer violência a qual o povo preto sempre esteve imerso. Seguimos com nossas próprias condições, construindo teoria a partir de nossas vidas e mortes, desgraça, servidão, drogas e ignorância, mas sobretudo a partir de práticas de resistência e libertação negra.

A nossa luta política é baseada em serviços comunitários e efetivo enfrentamento ao poder que tenta a todo custo nos eliminar da face da terra e diminuir nossa humanidade, nos utilizando como capachos e serviçais de pautas e propósitos que não nos pertencem, de lutas que não garantirão nossa libertação coletiva. Winnie Mandela acende em nós todos os dias o compromisso de construirmos um projeto de libertação de nosso povo. Winnie Madikizela Mandela é nossa mais pura inspiração.

Winnie Madikizela-Mandela que nos confiou seu nome e sua trajetória para imortalizarmos na história segue firme e intacta em nossas mentes, corpos pretos, braços e pernas que trabalham arduamente dia após dia, nas madrugadas ou no sol escaldante das tardes da cidade túmulo. Militantes envoltos em um sonho coletivo de resgate de nossa autonomia enquanto povo, de nossa independência política sem a tutela de brancos acadêmicos ditando o que devemos ser ou fazer, de nossa autodeterminação sem vagos momentos ociosos, de solidariedade entre nós pretos e pretas.

Nossa Escola de Formação Quilombista e Panafricanista é o núcleo mais avançado de nossa ação, junto com o Núcleo de Familiares de Vítimas do Estado, Núcleo de Familiares e Amigos de Presos e Presas, e nossas ações permanentes de solidariedade e autodefesa. Agora que a Mãe da nação africana volta a sua massa de origem, devemos honrar ainda mais sua história de vida totalmente dedicada a luta de libertação africana.

Em toda sua trajetória política Winnie Madikizela-Mandela jamais recuou de seu dever histórico de enfrentar as forças do apartheid em Soweto, onde nos anos 70 os jovens estudantes negros e negras protagonizaram o mais importante levante contra a opressão branca na África do Sul. A luta e a oposição desses estudantes baseava-se nas péssimas condições de educação, na educação de última categoria dedicada aos africanos e na violência cotidiana. Os jovens foram as ruas e enfrentaram balas com pedras, gritos e cantos tradicionais. Impulsionando e criando toda esta força, estava Winnie Mandela.

Ela é a senhora maior da 4° Internacional Garveista, da qual somos filiadas. Ela é a grande Mãe da rebelião preta em todo mundo. Seu pensamento e sua prática política tem nos animado desde becos e vielas e cadeias e favelas onde combatemos a continuidade perversa da escravização.

Aprendemos com sua luta interminável de libertação que devemos proceder honrando nossos princípios de guerra contra a supremacia branca. Ela nos ensinou que a luta é contínua e regada a muita dor e sangue de ambos os lados, de inimigos e de lutadores radicais dispostos a dar a vida pela conquista de um pedaço de terra ou a libertação de um irmão encarcerado nas catacumbas do sistema prisional ou do acalanto de uma mãe que grita pela perda de seu filho. Somos combatentes dispostas a retomar toda a glória dos tempos áureos das terras negras africanas.

Estamos formando um exército preto de mulheres e homens capazes de reconhecer na sua comunidade o espelho necessário para erguer novas estruturas e instituições com nossos métodos de luta real, com bases em ação comunitária em todos os lugares onde o nosso povo se encontra.

Seguimos atentas e atentos as armadilhas de nossos inimigos. Estamos na disposição para devastar a linha auxiliar a qualquer custo. Não negociamos nossas dores como uma mercadoria barata do período colonial, não barganhamos migalhas usando nossas dores e nossos mortos e história como meros ratos lotados em cargos de governo a espera de cadeiras vagas. Somos a rua, a cadeia, os becos, a noite. Guiamos nossa esperança através do sangue bruto derramado no barro quente sob nossos pés. Suamos como operários escultores de nossa liberdade. Sonhamos com nosso lar repleto de gente preta livre, mas acima de tudo projetamos a edificação de um império sólido cravado na rocha profunda com as insígnias eternas de “Reaja ou Será Morta, Reaja ou Será Morto”.

Salvador, abril de 2018.


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ENGLISH TRANSLATION

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NOTE FROM THE POLITICAL ORGANIZATION REACT OR DIE

TO THE GREAT AFRICAN QUEEN WINNIE MANDELA, OUR BEACON.

“To fuel the struggle, I had to expose myself to the violence and brutality of apartheid.”
Winnie Mandela

Winnie Madikizela-Mandela represented and will represent to us at Reaja (React or Die), a beacon, an important reference which shows us ways to a practice of defending the interests of our people, in a time of technological mirages and political betrayals of the purpose of the black struggle in Brazil.

Winnie Mandela, the imposing name we give to our quilombo of liberation, forged by blacks conscious of their racial-political history, is materialized by our courage to build a territory free of any violence, which black people have always been immersed in. We continue with our own conditions, building theory from our lives and deaths, disgrace, servitude, drugs and ignorance, but especially from practices of resistance and black liberation.

Our political struggle is based on communitarian services and effective confrontation with the power that tries at all costs to eliminate us from the face of the earth, and to diminish our humanity, using us as mats and servants of interests and agendas that are not ours, of struggles that will not guarantee our collective liberation. Winnie Mandela shines a light every day at the commitment to build a project of liberation of our people. Winnie Madikizela Mandela is our purest inspiration.

Winnie Madikizela-Mandela, who entrusted us with her name and her journey, is immortalized in history and follows steadily and intact in our minds, black bodies, arms and legs that work hard day after day till dawn, at the scorching sun of the tomb town afternoons. Militants enveloped in a collective dream of rescuing our autonomy as people, of our political independence, without the tutelage of white academics dictating what we should be or do, of our self-determination without vague idle moments, of solidarity between us black people.

Our Quilombist and Panafricanist Training School is the most advanced nucleus of our action, together with the Nucleus of Relatives of Victims of the State, Nucleus of Family and Friends of Prisoners (ASFAP-Bahia), and our permanent actions of solidarity and self-defense. Now that the Mother of the African nation returns to her place of origin, we must honor even more her life story, which was so completely dedicated to the African liberation struggle.

Throughout her political career, Winnie Madikizela-Mandela never backed down from her historic duty to confront the forces of apartheid in Soweto, where in the 1970s young black students staged the most important uprising against white oppression in South Africa. The opposition of these students was based on the poor conditions of education, the last-category education dedicated to Africans, and daily violence. The youth went to the streets and faced bullets with rocks, shouts, and traditional songs. Boosting and creating all this force was Winnie Mandela.

She is the senior lady of the 4th Garveyst International, of which we are affiliated. She is the great Mother of black rebellion in the whole world. Her thinking and her political practice has animated us from alleys and favelas, prisons and chains, where we fight the perverse continuity of enslavement.

We learn from her endless struggle for liberation that we must proceed by honoring our principles of war against white supremacy. She taught us that the struggle is continuous and watered with much pain and blood on both sides, from enemies and radical fighters willing to give their lives for the conquest of a piece of land, or the release of an imprisoned brother in the catacombs of the prison system, or the lullaby of a mother screaming over the loss of her child. We are fighters ready to take back all the glory of the golden times of the black African lands.

We are forming a black army of women and men capable of recognizing in their community the mirror necessary to erect new structures and institutions with our methods of true fight, grounded in community action wherever our people find themselves.

We remain attentive to the traps of our enemies. We are willing to devastate aid-routes at any cost. We do not trade our pains as cheap merchandise from the colonial period, we do not bargain for crumbs using our pains, and our dead, and history, as mere rats crowded into government offices waiting for vacant seats. We are the street, the chain, the alleys, the night. We guide our hope through the raw blood spilled in the hot clay under our feet. We sweat like working sculptors of our freedom. We dream of our home full of free black people, but most of all, we project the building of a solid empire embedded in the deep rock with the eternal insignia of “React or Die”.

Salvador, Brazil – April 2018.


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